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Design de Lenise
Resende
Lendas Indígenas 3
Edição e Pesquisa de Lenise Resende
a) O fogo e a luz - Os indígenas
brasileiros descobriram o fogo friccionando,
pacientemente, uma haste de madeira, seca, na
cavidade de um tronco de árvore. Logo que esse
atrito continuado produzia chama, fogueiras eram
feitas para adorar seus deuses, moquear a carne
da caça abatida, proteger a taba dos animais
ferozes e iluminar suas noites; A luz,
combatendo a escuridão noturna, afugenta os
fantasmas, as almas penadas, o espírito dos
mortos recentes que ainda acham que estão vivos.
É crença do povo que criança pagã, mulher de
resguardo, doente grave, não devem dormir no
escuro. O diabo, os morcegos e as feras noturnas
não gostam e têm medo da luz. (Dicionário de
Folclore para Estudantes); Segundo Artur Ramos
(Introdução à antropologia brasileira, RJ,
1943), o muquém ou moquém "era um processo de
cozinha típico dos tupi-guarani, mas usado
também por outras tribos indígenas. Consistia em
quatro forquilhas de pau, dispostas em
quadrilátero, com varas atravessadas, em cima
das quais se punha a carne ou o peixe, que se
desejava moquear. O fogo era preparado em baixo
e sua ação lenta conservava pela fumaça o
alimento".
b) Origem do fogo (lenda Kaingang) - No
inicio do mundo, a única fonte de calor era o
sol. Os homens não podiam defender-se do frio e
os alimentos eram comidos crus. Só Minarã, um
estranho índio, conhecia os segredos do fogo e
os guardava só para si. A cabana de Minarã, onde
o fogo era guardado sempre aceso, era vigiada
por sua filha Iaravi. Para descobrir o segredo
do fogo, o guerreiro Fiietó transformou-se numa
gralha branca e voou até a cabana de Minarã.
Iaravi estava no rio banhando-se. A gralha caiu
na água e deixou a correnteza levá-la para perto
da jovem. Iaravi pegou a gralha, levou-a para
dentro da cabana e colocou ao lado do fogo para
que secasse. Quando as penas secaram, a gralha
roubou um carvão em brasa e fugiu. Minarã
perseguiu Fiietó mas não o encontrou pois ele se
escondera numa caverna. Quando saiu do
esconderijo, ainda como gralha, Fiietó voou até
um pinheiro e, com a brasa, incendiou um ramo de
sapé. Depois, voou na direção de sua aldeia,
levando o ramo no bico. Como o ramo era pesado e
o vento soprava aumentando sua chama, era
difícil transportá-lo. Fieetó, então, decidiu
arrastá-lo pelo mato e acabou provocando um
grande incêndio. A floresta ardeu em chamas
durante muitos dias. Vendo o incêndio, índios de
todas as tribos foram buscar brasas e tições e
levaram para suas casas que, desde então,
passaram a ter suas próprias fogueiras sempre
acesas.
c) Origem do fogo (lenda Taulipang) -
Palenosamó era uma velha feiticeira que não
gostava dos outros índios, por isso, vivia
sozinha no fundo da floresta, numa clareira,
longe da tribo. Naquele tempo, os homens ainda
não conheciam o fogo. Os seus beijus eram secos
ao sol e tinham um gosto meio ruim. Palenosamó
também só podia comer as coisas cruas. Certo
dia, ela saiu de casa para apanhar alguns ramos.
Juntou a lenha e arrumou-a como para uma
fogueira, cuspiu em cima e a madeira pegou fogo.
"Ah! Disse ela, esfregando as mãos. Agora vou
ter comida quente." Preparou um moquém (grelha
de varas), fez beijus, caxiri e regalou-se.
Estava contente da vida. Numa tarde, quando o
sol tostava a terra e todos repousavam debaixo
das cabanas, uma jovem índia entrou na floresta.
Foi andando até dar com a casa da feiticeira.
Subiu numa árvore e ficou a olhar. Tudo estava
silencioso. O vento tinha parado. Nenhuma folha
se mexia. Daí a pouco, apareceu a velha no
terreiro. Pegou um pouco de lenha, juntou-a e
fez fogo outra vez. A moça ficou muito
espantada. Desceu da árvore, afastou-se devagar
para não ser percebida, e, quando já estava a
uma boa distância, deitou a correr o mais que
podia. Chegou na taba quase sem fôlego. Contou
aos companheiros o que vira; como a velha índia
fizera fogo. Ao receber a notícia, os homens
ficaram satisfeitíssimos. "Vamos para lá!
Precisamos de fogo também." Foram. A moça, na
frente, ia-lhes mostrando o caminho. Finalmente,
chegaram. Falaram a Palenosamó: "Sabemos que
tens fogo. Dá-nos!" A feiticeira ria-se,
negando-se a atendê-los. "Se não nos dás o fogo,
nós te obrigaremos!" Gritaram os índios.
Agarrando-a, prenderam-na consigo, voltando a
tribo. No meio da taba, amarram-na num poste.
Juntaram, em torno dela, bastante lenha. Em
seguida, apertaram o ventre da velha feiticeira,
até que não agüentou mais e cuspiu sobre a
madeira. O fogo apareceu, vivo e forte. Queimou
a terra, em baixo, transformando-a numa pedra -
"wato". Essa pedra, quando é batida em outra
igual, solta faíscas. Desse modo, os índios
aprenderam a fazer fogueiras e não tiveram mais
de comer os alimentos crus. (Lendas Indígenas -
Gráfica Ed. Aquarela, SP, 1962)
d) Fogo dos Xavantes - A onça
originalmente tinha o fogo. Um dia o neto e o
cunhado foram procurar filhote de arara. O neto
subiu numa escada e jogou uma pedra no cunhado.
O cunhado ficou bravo e deixou o neto lá em
cima, no penhasco. A onça chegou e fez o garoto
descer e levou ele para sua toca. Na toca a onça
assou carne de queixada para o neto e o neto viu
o fogo pela primeira vez. Depois, o neto foi
embora da toca da onça levando um pouco de
carvão, como prova do fogo. Na comunidade,
contou que a onça era a dona do fogo. A
comunidade toda combinou de roubar o fogo da
onça. Assim, vários Xavantes se transformaram em
animais para poder roubar o fogo. A primeira que
roubou da onça foi a anta, que passou para o
cervo, que passou para o veado campeiro, que
passou para o veado mateiro que passou para a
seriema, que passou para a capivara. A capivara
deu um pulo na água, mas antes, um passarinho
passou e pegou o fogo levando este para a
aldeia. Tendo fogo e mais caça para comer,
começou a se desenvolver o povo Xavante nascendo
mais crianças e ficando mais fortes.
e) Fogo dos Kuikúru - Os índios kuikúru
não tinham fogo. Kanassa, um herói demiurgo,
resolveu procurar. Levava na mão fechada um
vaga-lume. Cansado da caminhada, resolveu
dormir. Abriu a mão, tirou o vaga-lume e pôs no
chão. Como estava com frio, se acocorou para se
aquentar à luz do vaga-lume. Quando Kanassa e a
saracura chegaram ao outro lado da lagoa, ele
desenhou no barro uma arraia, mas com o escuro
não viu o próprio desenho e foi ferrado. Kanassa
pediu, então, o fogo à saracura, para poder
enxergar. Esta lhe disse que só o ugúvu-cuengo
(urubu-rei) é que tinha fogo. "Como é esse
ugúvu-cuengo?" "É um tipo de uruágui (urubu
comum), muito grande, com duas cabeças e difícil
de ser encontrado. Fica em lugar bem alto e só
desce para comer." "Como é que a gente faz para
segurar ele?" "O único jeito é matar um veado
grande, esconder-se embaixo da unha dele até ele
apodrecer. E, quando o urubu-rei chegar, segurar
a perna dele e só soltar quando ele der o fogo."
Kanassa desenhou um veado morto, escondeu-se na
unha da carniça, e ficou esperando o dono do
fogo se aproximar. Quando este começou a comer a
carne podre, agarrou-o pelo pé. O urubu-rei só
ficou um pouquinho zangado, chamou um passarinho
preto e mandou buscar o fogo lá do céu. O
passarinho trouxe uma brasa, assoprou e acendeu
o fogo. Kanassa, na mesma hora soltou o
urubu-rei. Quando o fogo já estava aceso e
quente, vieram os sapos, sopraram água nele e
fugiram para a água. Mas o fogo não chegou a
apagar e, o urubu-rei, então, disse: "Kanassa,
quando o fogo apagar, quebra uma flecha em
pedaços, racha no meio, amarra bem uma sobre a
outra e firma bem no chão. Feito isso, procura
uma varinha de urucum e com ela, apoiando uma
das pontas nos pedaços da flecha, tira com força
até o fogo surgir. E, procura um cipó da beira
da água, abre e deixa secar. É muito bom para
ajudar a acender fogo." Para levar o fogo para o
outro lado do rio, Kanassa chamou as cobras. Só
uma, muito ligeira, conseguiu chegar até o outro
lado: a itóto. Kanassa também atravessou a água
e lá no outro lado deu bebida, mingau e beiju
para itóto - a cobra que conduziu o fogo.
(resumo da lenda Fogo dos Kuikúru, Villas Boas &
Villas Boas, 1972)
f) Fogo dos Parintintins - Os
parintintins, que também se chamavam kagwahiva,
nunca tinham visto fogo. Para obter comida
quente, armavam um moquém (grelha de varas) com
caça e deixavam-no ao sol. Pediram então ao
semideus Bahira, que lhes desse um pedaço do
sol. Prometendo atendê-los, Bahira entrou na
floresta e fez um "onimbó-é", um ardil para
enganar os outros. Deitou-se, fingindo-se morto.
Vendo-o, a mosca varejeira voou em sua direção;
cheirou-o e partiu a toda pressa em busca do
urubu-rei, exatamente como o *tuixauá desejava.
Esse pássaro era, naquele tempo, o dono do fogo.
Veio depressa, pensando em regalar o estômago
com o índio. Pegou-o e pôs fogo embaixo. Tão
contente estava que Bahira aproveitou-se do seu
descuido para roubar o fogo e fugir. Percebendo
o que acontecera, o urubu-rei reuniu sua gente e
saiu em perseguição ao índio. Este, ouvindo o
barulho dos perseguidores, ocultou-se num tronco
oco, os urubus entraram atrás dele. Bahira
escapou pelo outro lado e tornou a esconder-se,
agora numa moita de taquara. Respirou fundo...
Tinha conseguido. Chegando à beira de um rio,
chamou a cobra e pôs-lhe fogo nas costas, para
que ela o levasse a sua gente, que estava na
outra margem. Inteiramente queimada, a cobra
morreu. Chamou o camarão e, tomando o fogo, fez
a mesma coisa. O camarão, ficou muito vermelho e
também morreu. Colocou ainda o fogo nas costas
do caranguejo e o infeliz teve a sorte dos seus
companheiros. Bahira já estava começando a ficar
preocupado. Tentou uma vez mais com a saracura,
e a pobre ave ficou como os outros. Quando
Bahira já não sabia o que fazer, apareceu o sapo
cururu, que tem o costume de engolir brasas,
julgando que são vagalumes. Engoliu o fogo e
carregou-o até onde estavam os parintintins. Em
seguida, o "Tuixauá-Bahira" quis pular para
junto dos seus amigos. Achando o rio muito
largo, gritou-lhe e ele imediatamente ficou
estreito. Saltou-o e foi-se com os índios da sua
tribo. Como recompensa ao sapo cururu por ter
levado o fogo, Bahira nomeou-o pajé dos
parintintins. (Lendas Indígenas - Gráfica Ed.
Aquarela, SP, 1962) *Tuixauá ou tuxaua - chefe
da tribo
g) Flechas dos Parintintins - A região
que os parintintins (kagwahiva), habitavam era
muito rica; a floresta estava cheia de pequenos
animais bons para comer. Entretanto, como não
possuíam flechas, nem sempre podiam obter a
carne que precisavam. Caçavam com grande
dificuldade, agarrando os bichos à unha.
Cansados disso pediram armas ao semideus Bahira.
O "tuixauá" gostava de ajudar seu povo. Derrubou
uma árvore, tirou sua casca, cortou alguns cipós
compridos. Fez uma máscara que os índios chamam
de "anhangá", parecendo uma sucuri, e vestiu-se
com ela. Desceu o rio, deixando-se levar pela
corrente, até uma tribo próxima cujos habitantes
tinham flechas. Vendo aquela cobra enorme, eles
começaram a flechá-la. A máscara de Bahira ficou
como um porco-espinho. Ele, então, mergulhou nas
águas do rio e nadou de volta para sua tribo,
entregando as flechas aos amigos. Um dos
parintintins, ficou intrigado e perguntou como
ele havia arranjado tudo aquilo. "Fiz uma grande
cobra de casca de árvore e vesti-a." disse
Bahira. "Mas não deves tentá-lo. É muito
perigoso!" O parintintin não deu atenção ao
aviso. Fez também uma cobra, vestiu-se com ela e
encaminhou-se para o rio. Caiu na corrente e foi
deslizando até a mesma tribo. Vendo outra
sucuri, aqueles índios aproximaram-se gritando e
despejaram flechas sobre ela. Uma atingiu a
cabeça do parintintin que morreu sem dar um
grito. Tiraram-no da água, abriram a máscara e
retiraram-no daí. Amarraram ele num moquém
(grelha) e puseram fogo, para assar. Como o
amigo demorava, Bahira foi procurá-lo, desta vez
sem colocar a máscara. Chegou à tribo e pediu
aos índios que o deixassem entrar.
Perguntou-lhes o que estavam a moquear
(grelhar). Era o amigo, morto. Pediu-lhes então
alguns pedaços. Voltando para casa, colocou-os
dentro de um cesto pequeno. Assoprou. Apareceu
apenas a metade do amigo. Não conseguindo o que
desejava, ele lançou longe os pedacinhos, que
foram transformando-se em cotias, quatis,
veados. (Lendas Indígenas - Gráfica Ed.
Aquarela, SP, 1962) *Tuixauá ou tuxaua - chefe
da tribo
h) Origem dos diamantes - Há muito tempo,
vivia à beira de um rio uma tribo de índios.
Dela fazia parte um casal muito feliz Itagibá e
Potira. Itagibá, que significa braço forte, era
um guerreiro robusto e destemido Potira, cujo
nome quer dizer flor, era uma índia jovem e
formosa. Vivia o casal tranqüilo e venturoso,
quando rebentou uma guerra contra uma tribo
vizinha. Itajibá teve de partir para a luta. E
foi com profundo pesar que se despediu da esposa
querida e acompanhou os outros guerreiros.
Potira não derramou uma só lágrima, mas seguiu,
com os olhos cheios de tristeza, a canoa que
conduzia o esposo, até que a mesma desapareceu
na curva do rio. Passaram-se muitos dias sem que
Itagibá voltasse à taba. Todas as tardes a índia
esperava, à margem do rio, o regresso do esposo
amado. Seu coração sangrava de saudade. Mas
permanecia serena e confiante, na esperança que
Itagibá voltaria à taba. Finalmente, Potira foi
informada que seu esposo jamais regressaria. Ele
havia morrido como um herói, lutando contra o
inimigo. Ao ter essa notícia, Potira perdeu a
calma que mantivera até então e derramou
lágrimas copiosas. Vencida pelo sofrimento,
Potira passou o resto de sua vida, à beira do
rio, chorando sem cessar. Suas lágrimas puras e
brilhantes misturaram-se com as areias brancas
do rio. A dor imensa da índia impressionou Tupã,
o rei dos deuses. E este, para perpetuar a
lembrança do grande amor de Potira, transformou
suas lágrimas em diamantes. Daí a razão pela
qual os diamantes são encontrados entre os
cascalhos dos rios e regatos. Seu brilho e sua
pureza recordam as lágrimas de saudade da
infeliz Potira. (Lendas e Mitos do Brasil,
Theobaldo M. Santos)
i) A pedra e a taquara (lenda Bororo)
-
Um bororo assistiu a uma discussão entre a pedra
e a taquara. Eles queriam chegar a uma
conclusão: quem parecia mais com a vida do
homem. Disse a pedra: "Eu, como pedra, sou mais
resistente e firme. Tenho vida longa, longa. E é
por estas e outras que me identifico com a vida
humana." E a taquara respondeu: "Eu morro, mas
renasço imediatamente ou deixo família."
Retrucou a pedra: "Não adoeço; o vento, o sol e
a chuva não me causam transtornos. A morte não é
problema para mim. E você?" "Bom! Minha morte
pode causar vários benefícios. Quando me cortam
utilizam-me para alguma coisa. Minha raiz
germina outro corpo, formando nova família. Daí
por diante, a família vão germinando...
germinando..." A pedra, perdeu a voz. A taquara,
balançando suas folhas verdes, respirando a
brisa da manhã, disse: "Minha vida é uma cópia
da vida humana, onde cada um nasce, cresce,
reproduz e depois morre, deixando aos filhos a
responsabilidade de continuar a renovação da
vida." |