Design de Lenise Resende

Lendas de Plantas 2
Edição e Pesquisa de Lenise Resende


a) Açaí - O açaí é uma palmeira, que chega a alcançar 30 metros de altura, e que faz parte da paisagem amazônica e dos hábitos nortistas. Nasce em cachos em número de 3 a 8 por planta e existem em duas variedades: o roxo e o branco. Frutifica quase o ano inteiro e dela tudo se aproveita. Os troncos dão palmitos, as palhas servem para cobertura de casas e dos frutinhos, do tamanho de cerejas, se extrai um caldo arroxeado. "Segundo a lenda, uma tribo que vivia onde está situada a cidade de Belém atravessava um período negro de escassez, obrigando o cacique Itaki a decretar a morte de toda criança nascida a partir daquela data, como medida de controle demográfico da tribo. Mas eis que Iaçá, a filha do cacique, dá à luz uma menina. Apesar de ser neta do cacique, a recém-nascida deveria ser submetida à pesada lei, debalde os rogos da infeliz e desventurada mãe. Cumprida a sentença, a pobre Iaçá chora por dias, sempre orando a Tupã para que mostre um jeito de acabar com as mortes dos inocentes. Numa noite ela ouve um choro de criança; tentando localizá-lo, descobre sua filhinha encostada numa esguia palmeira, sorrindo-lhe; mas, ao abraçar a filha, esta desaparece e Iaçá vê-se atracada ao tronco da palmeira. No dia seguinte, o cacique encontra o corpo da filha abraçado ao tronco de uma palmeira, que trazia um cacho de frutinhas negras, como os olhos de Iaçá. Imediatamente ordenou que esmagassem as frutas num alguidar e o suco obtido chamou de açaí, que é o nome da filha ao contrário." (Painel de Mitos & Lendas da Amazônia, Franz K. Pereira, Belém, 1994)

b) Erva-mate (lenda Carijó) - Uma tribo de índios carijós (índios da família tupi-guarani que habitavam o litoral sul do Brasil) vivia do seu trabalho na lavoura de mandioca e milho. Mas, depois de permanecer por 4 ou 5 anos num local, eles migravam pois a terra se cansava e parava de produzir. Certa vez, um velho guerreiro cansado recusou-se a seguir adiante e preferiu ficar sozinho. Sua filha, a jovem Yary, permaneceu junto a ele. Sua atitude de amor mereceu ser recompensada e, um dia, lá chegou um gurreiro desconhecido. Ele indagou a Jary o que a deixaria feliz. Ela nada respondeu mas, seu pai, disse: "Desejaria ser forte para seguir adiante e levar Yary ao encontro da tribo que lá se foi." O guerreiro deu ao velho índio uma planta muito verde e perfumada. Ensinou-o como plantar, colher as folhas, secar ao fogo, triturar e colocar os pedacinhos na cuia, feita com o fruto seco do porongo (também conhecido como cabaça). E, depois, acrescentar água quente ou fria e sorver essa infusão. Dada a receita, disse: "Terás nessa nova bebida uma companhia saudável mesmo nas horas solitárias. E, como prêmio pela generosidade de sua acolhida, torno imortal sua filha Yari." Foi assim que a jovem carijó Yari transformou-se na árvore da erva-mate (caá-yari) e nasceu a bebida caá-y que os brancos mais tarde adotaram com o nome de chimarrão. Árvore que, por mais que seja desfolhada, volta a brotar e a florir sempre mais vigorosa, permanecendo sempre jovem. Depois disto o guerreiro partiu. Caá-Yari tornou-se a deusa dos ervais e protetora dos ervateiros, diminuindo-lhes o peso dos feixes e renovando suas forças.

c) Erva-mate (lenda Guarani) - Uma tribo de índios guaranis vivia do seu trabalho na lavoura de mandioca e milho. Mas, depois de permanecer por 4 ou 5 anos num local, eles migravam pois a terra se cansava e parava de produzir. Certa vez, um velho índio cansado recusou-se a seguir adiante e preferiu ficar sozinho. Sua filha, a jovem Jary, permaneceu junto a ele. Sua atitude de amor mereceu ser recompensada e, um dia, lá chegou um pajé desconhecido. Ele indagou a Jary o que a deixaria feliz. Ela nada respondeu mas, seu pai, disse: "Desejaria ser forte para seguir adiante e levar Jary ao encontro da tribo que lá se foi." O pajé deu ao velho índio uma planta muito verde e perfumada. Ensinou-o como plantar, colher as folhas, secar ao fogo, triturar e colocar os pedacinhos na cuia, feita com o fruto seco do porongo (também conhecido como cabaça). E, depois, acrescentar água quente ou fria e sorver essa infusão. Dada a receita, disse: "Terás nessa nova bebida uma companhia saudável mesmo nas horas solitárias." E partiu. Foi assim que nasceu a caá-mini. Dela resultou a bebida caá-y que, mais tarde, os brancos adotaram com o nome de chimarrão. Com essa bebida, o índio recuperou-se e decidiu empreender a longa viajem para reencontrar sua tribo. Lá chegando, foram recebidos com alegria. Mais tarde, a tribo toda adotou o costume de beber a infusão gostosa e amarga da erva-mate. O consumo da erva-mate se faz de duas maneira distintas: sob a forma de chimarrão ou chá.

d) Erva-mate - Um grupo de guerreiros estava reunido em torno de uma fogueira. De repente, surgiu uma discussão entre o jovem Piraúna e Jaguaretê, guerreiro tão feroz como a fera da qual tinha o nome. Encolerizado, Jaguaretê, que bebera muito caium, pegou o tacape e esmagou o crânio de Piraúna. Revoltados, os outros guerreiros amarraram Jaguaretê. Os parentes do morto tinham o direito de tirar a vida do matador. Mas, Cruaçu, o pai de Piraúna, declarou que não queria o sangue dele, pois não fora ele que matara Piraúna e sim Anhangá, o diabo, que o fizera beber demais e tirar a vida de seu filho. Jaguaretê foi desamarrado do poste. Suas armas foram devolvidas e ele partiu, desaparecendo na floresta. Muitos anos depois, alguns jovens caçadores da tribo descobriram no interior da mata, uma cabana isolada, onde vivia um homem forte e de cabelos brancos. Recebendo os jovens caçadores com cortesia, o velho serviu-lhes uma bebida deliciosa e contou-lhes sua história. Era Jaguaretê, o índio expulso da tribo, de quem os moços tinham ouvido falar por seus pais. Disse-lhes Jaguaretê que, na ocasião em que se internara na floresta, caminhara dias e dias até cair, quase morto de fome e cansaço. No lugar em que caiu desfalecido, cresciam árvores que desconhecia. Adormecido, a deusa Caá-Yari, protetora dos ervais, apareceu-lhe em sonho e lhe ensinou a preparar, com as folhas daquelas árvores, aquela bebida que lhes servira. Graças às propriedades maravilhosas dessa planta, que lhe restituíra as forças e lhe dera novas energias, Jaguaretê escapara da morte, conseguindo conservar-se vigoroso e sadio, durante o longo tempo em que viveu longe da sua querida tribo. Eis porque o uso do cáa, nome que os índios dão à erva-mate se tornou hábito de todas as tribos que vivem nas regiões do Brasil onde existem ervais.

e) Guaraná (lenda Maué) - *Icuamã (Ikuamã), *Ocumató (Okumáató) e Onhiamuaçabê (Onhiámuáçabe) eram irmãos. Ciumentos, os dois irmãos de Onhiamuaçabê não queriam que ela se casasse. A jovem conhecia todas as plantas e seus usos e era dona do Noçoquém, um lugar encantado no qual havia plantado uma castanheira. Um dia, uma cobrinha que a queria como esposa, ficou no seu caminho e a tocou levemente numa das pernas, engravidando-a. A mitologia indígena afirma que para uma mulher engravidar bastava ser tocada por homem, animal ou planta que a desejasse como esposa. Furiosos, os dois irmãos a expulsaram e se apoderaram do Noçoquém. Nasceu um curumim bonito e forte. E, mal aprendeu a falar, o menino começou a desejar os frutos da castanheira que sua mãe plantou. O Noçoquém, no entanto, estava sob a guarda da cutia, da arara e do periquito, que tinham ordens de matar quem ali encontrassem. Um dia, quando o menino se deliciava com os frutos, os guardas o mataram. Quando a mãe chegou, já era tarde. Desesperada, ela jurou dar continuidade existência do filho e enterrou seus olhos. A planta que nasceu do olho esquerdo não prestou, era o guaraná-rana, o falso guaraná; do olho direito, é que nasceu o verdadeiro guaraná. A planta do guaraná foi crescendo. Depois de um tempo, da cova onde o menino foi enterrado, começaram a sair alguns animais. No final saiu um menino - o filho de Onhiamuaçabê que ressuscitou. Era o primeiro índio da tribo dos Maués, que se consideram "os filhos do guaraná". (Resumo da lenda colhida e publicada por Nunes Pereira em Os índios Maués, RJ, 1954) * Icuamã e Ocumató - Ver Lenda do timbó e da castanheira, e Lenda da primeira água.

f) Guaraná (lenda Maué) - Um casal de índios Maués viveu junto por muitos anos sem ter filhos, mas desejavam muito ter uma criança. Um dia, eles pediram a Tupã uma criança para completar aquela felicidade. Tupã, o rei dos deuses, sabendo que o casal era bondoso, lhes atendeu o desejo trazendo um lindo menino. O tempo passou rapidamente e o menino cresceu bonito, generoso e bom. No entanto, Jurupari, o deus da escuridão, sentia uma extrema inveja do menino e da paz e felicidade que ele transmitia. E decidiu, então, matá-lo. Um dia o menino foi coletar frutos na floresta e Jurupari aproveitou-se da ocasião para lançar sua vingança. Transformou-se numa serpente venenosa e mordeu o menino, matando-o instantaneamente. A triste notícia espalhou-se rapidamente. Neste momento, trovões ecoaram na floresta e fortes relâmpagos caíram na aldeia. A mãe, que chorava em desespero, entendeu que os trovões eram uma mensagem de Tupã, dizendo que ela deveria plantar os olhos da criança e que deles uma nova planta cresceria dando saborosos frutos. Os índios obedeceram ao pedido da mãe e plantaram os olhos do menino. Neste lugar cresceu o guaraná, cujas sementes são negras, cada uma com um arilo em seu redor, imitando os olhos humanos.

g) Guaraná - Jaci, a deusa da beleza, protegia Cereçaporanga, uma índia belíssima. Mesmo sendo adorada por sua tribo, ela apaixonou-se por um jovem de uma tribo inimiga e com ele fugiu. Houve uma grande perseguição por parte dos guerreiros na tentativa de convencê-la a voltar. Sabedora dessa perseguição, Cereçaporanga propôs ao amado um pacto de morte, pois sabia que caso fossem alcançados ele seria trucidado pelos guerreiros. Assim, eles se mataram junto de pé de Sapupema. Chegando os guerreiros e vendo-a morta, ficaram tristíssimos e, imploraram à deusa Jaci, que não deixasse o espírito de Cereçaporanga abandoná-los. Jaci, comovida, fez nascer dos olhos da índia uma planta cujas sementes, quando maduras, lembram um par de olhos negros. Essas sementes tomadas em chás e infusões ou trituradas deram aos irmãos de Cereçaporanga uma grande vitalidade.

h.1) Vitória-régia - (Apé, Uapé, Uapê, Forno-d'água, Forno-de-jaçanã, Forno-de-jacaré, Iapunaque-uapê, Iuapê-jaçanã, Iaupé-iaçanã ou Jaçanã) A vitória-régia é uma planta aquática que floresce e se desenvolve quando das "águas vivas" e definha quando a água é pouca. Esta é uma das lendas inspiradas por Rudá, o deus do amor, e nasceu do amor entre a índia Moroti e o guerreiro Pitá. Diz a lenda que Moroti, querendo mostrar para as amigas o quanto era amada pelo guerreiro, jogou sua pulseira no rio, desejando que, como prova de amor, Pitá a trouxesse de volta. O infeliz apaixonado atirou-se ao rio e não retornou. Desesperada e arrependida, Moroti jogou-se atrás do amado, tendo igual fim. No dia seguinte, a tribo presenciou o nascimento de uma grande flor, que ao centro era branca, como o nome de Moroti, e as pétalas ao redor eram vermelhas, como o nome do bravo Pitá. (Painel de Mitos & Lendas da Amazônia, Franz K. Pereira, Belém, 1994)

h.2) Vitória-régia - Em uma tribo que vivia às margens do rio Amazonas, as jovens índias ficavam horas admirando o céu, suas constelações e a beleza da lua branca. Uma noite, Naia uma jovem índia sonhadora, subiu na árvore mais alta que encontrou, para ver se pegava a lua. Não conseguiu. Na noite seguinte, foi com outras jovens até o cume de um monte para tocar com as mãos a lua e as estrelas. A lua continuava distante e elas voltaram tristonhas para a tribo porque, tocando a lua ou as estrelas, tornar-se iam uma delas, como queriam. Mas Naia não desistiu e, na próxima noite, ao ver a lua cheia refletida nas águas tranquilas de um igarapé, pensou que ela viera banhar-se, para que pudesse apanhá-la. Afoita, lançou-se na água e logo desapareceu. Com pena da jovem, a lua, com um beijo de luz, transformou-a numa flor - a vitória-régia (estrela das águas) de inebriante perfume e pétalas estiradas à flor da água, para melhor receber a luz da lua.

h.3) Vitória-régia - Naia, uma jovem e bela índia ficava, nas margens do Rio Amazonas, contemplando por longas horas a lua branca. Ela acreditava que a lua era um bonito guerreiro - Jaci, e sonhava em ser sua noiva. Uma noite, Naia subiu numa árvore alta para tentar tocar a lua. Não obteve êxito. Na próxima noite, ela subiu numa montanha para sentir com suas mãos a maciez do rosto da lua, mas novamente falhou. Quando chegou lá, a lua estava tão alta que ela retornou à aldeia desapontada. Na noite seguinte, Naia tomou o caminho do rio. Refletida no espelho das águas, lá estava a lua, imensa, resplandescente. Naia, em sua inocência, pensou que a lua tinha vindo banhar-se para poder ser tocada. Mergulhou nas profundezas das águas desaparecendo para sempre. A lua, sentindo pena da jovem, transformou-a em uma flor gigante - a vitória-régia - com um inebriante perfume e pétalas que se abrem nas águas para receber em toda sua superfície, a luz da lua.

h.4) Vitória-régia - Na cabeceira do rio, onde as águas são mais puras, morava Tauí, um velho índio, cuja filha, Jaciara, assim chamada por ser a senhora da lua, era, com os seus olhos mais negros do que o acapú, a mais formosa moça das redondezas... Um dia, voltando da caça, adivinhou Tauí, de longe, a presença de um estranho na palhoça que lhe servia de casa. Arrastando-se, como uma cobra, sobre as folhas do chão, estava a poucos passos da porta de esteira, quando de lá pulou um homem, que desapareceu, de um salto, no seio da mataria... Furioso com a traição da filha, o índio, feroz, atirou-se contra ela, esganou-a, e abriu-lhe, de lado a lado, com a ponta da flecha, a caixa do peito moreno. Feito isso, enfiou no seu corpo as grandes unhas de tamanduá, e arrancou-lhe, sangrento, o coração ainda palpitante, que atirou, da porta da palhoça, à clara correnteza do rio. Desde esse tempo... começaram a aparecer no rio estas verdes plantas errantes, cuja flor, alva como a lua, dorme no fundo das águas, e rebenta, à noite, com grande estampido, espalhando por tudo, em redor, a doçura do seu perfume... É a "vitória-régia" - o coração de Jaciara... (Adaptação de "Vitória-régia", Humberto de Campos, livro A Serpente de Bronze)


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