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Design de Lenise
Resende
Lendas de Estrelas
Edição e Pesquisa de Lenise Resende
a) O Sete-estrelo ou Plêiades (lenda Kaxinawá) -
Uma jovem índia tinha sete filhos. Entretanto,
não cuidava dos pequenos e passava horas
balançando-se na rede. Era a avó quem tratava
das crianças, agasalhando-as quando tinham frio
ou dandos-lhes de comer. Mas, um dia, a avó
morreu e os meninos ficaram desamparados. O mais
velho dos irmãos é que procurava o que comer:
frutas, mel, palmitos. Era, porém, ainda pequeno
e nem sempre conseguia alimento para todos.
Quando os filhos choravam de fome, a índia os
enganava com alguns restos de caça, ossos
descarnados e nada mais. Uma noite, eles estavam
com muita fome, já sem forças e fracos de tanto
chorar. Então o irmão mais velho disse: "Vamos
para o céu? Lá nós sempre teremos comida, frutas
e mel." Todos concordaram em ir para o céu.
Nesse momento passou uma brisa, ouviu o que as
crianças diziam e foi erguendo-as devagarinho,
até que a mãe acordou na rede. Vendo que os
filhos não estavam ali, ela chamou-os aflita. E
uma voz muito fraca respondeu do alto: "Mamãe,
nós estamos indo para o céu!" "Filhos meus - ela
gritou, cheia de dor - venham para cá, que eu
darei o que quiserem!" Era tarde... Os meninos
continuaram a subir e, lá no céu,
transformaram-se nas estrelinhas que se chamam
Sete-estrelo. Sete-estrelo ou Plêiades é um
aglomerado de 7 estrelas da constelação de
Touro, das quais 6 são visíveis a olho nu (sem o
auxílio de telescópios). (O Mundo da Criança -
vol.5, 1949, Ed. Delta)
b) A Cobra Grande e o Serpentário - Numa tribo
do Amazonas, havia uma mulher tão má que até
devorava crianças. Um dia, a tribo decidiu
atirá-la no rio, para que morresse afogada e
nunca mais perseguisse alguém. Porém o Anhanga,
espírito protetor de animais e fêmeas grávidas,
decidiu salvá-la. Casou-se com ela, deu-lhe um
filho e transformou o menino em cobra, para que
pudesse viver dentro do rio. Mas logo a cobra
começou a crescer, crescer... e o rio tornou-se
pequeno para abrigá-la. Devorados por ela, os
peixes iam desaparecendo. Durante a noite, como
se fossem faróis, seus olhos iluminavam os rios
e as praias, vagando fosforescentes na busca por
homens e caça para devorar. Aterrorizadas, os
índios deram-lhe o nome de Cobra Grande. No dia
que a mãe da Cobra Grande morreu, sua dor
manifestou-se por um violento ódio. De seus
olhos brotaram flechas de fogo que, atiradas
contra o céu escuro, transformaram-se em raios.
A partir deste dia, a Cobra Grande se recolheu.
Crê-se que viva adormecida debaixo das grandes
cidades. E, só acorde durante as grandes
tempestades, para assustar com a luz dos
relâmpagos, e para anunciar o verão no céu em
forma de Serpentário (constelação boreal).
c) O Serpentário (constelação boreal) - Uma
jovem índia vivia solitária, numa casinha
perdida no fundo da mata. Comia do que lhe davam
as árvores do bosque e o peixe que pescava num
riacho próximo. Sentia-se muito só. "Vou
procurar alguém que more comigo!" Pensou um dia.
Foi. Correu a floresta, em busca de uma oca.
Depois de andar bastante, avistou, ao longe, uma
choupana. Aproximou-se com o coração aos pulos.
No terreiro, um homem que moqueava* comida.
"Vives aqui?" Perguntou a moça. "Sim, moro
aqui!" Respondeu ele, surpreso. "Vim de um lugar
distante. Se quiseres, morarei contigo. Sei
cozinhar, tecer as fibras do timbó, fazer
redes." "Pois bem, ficarás! Vejamos se é verdade
o que dizes. Aqui tens fibra. Começa a tecer!" O
homem deixou-a outra vez sozinha. Dava-lhe
trabalho mas nada oferecia de comer. A jovem,
para não morrer de fome, ia ao galinheiro, todas
as noites; tirava um ovo, fazia um furinho na
casca e bebia a gema. Depois, recolocava-o,
aparentemente perfeito, no ninho. O índio
desconfiou. Para ter certeza, esvaziou um ovo e
pôs, dentro, um fio de cabelo. À noite, como
fazia sempre, a mulher tornou ao galinheiro.
Engoliu o cabelo que, no seu estômago,
transformou-se em cobra. Ao voltar, o marido
percebeu que havia serpentes no ventre da
esposa. "Vamos à floresta apanhar sorva
(fruta)!" propôs. "Eu também vou!" gritou a
cobra. Os dois assustaram-se com aquilo. Mas
resolveram prosseguir. Escolheram uma árvore
carregada de frutos. "Eu mesma vou subir!" Disse
novamente a víbora, e saiu pela boca da índia.
"Amarre a cauda na árvore." Ordenou o homem à
mulher. Correram, fugindo desesperadamente.
Chegando em casa, o índio escondeu a esposa numa
urna de barro. A serpente veio depressa: "Minha
mãe! Minha mãe!" Procurou-a por toda choupana.
Não pôde achá-la. Foi até o rio, buscou-a no
bosque, tudo em vão! Então, subindo ao céu,
disse ao homem: "Por que escondeste minha mãe?
Vou para onde moram as nuvens. Quando eu surgir
no firmamento, começará o verão. Sai e prepara a
roça!" É por esta razão que a constelação do
Serpentário aparece nos céus da Amazônia em
setembro. (Lendas Indígenas - Gráfica Ed.
Aquarela, SP, 1962) *Moquear - secar o alimento
(carne) para conservar
d) Taina-Can, a estrela Vésper (lenda Carajá) -
Um casal carajá teve duas filhas: Imaeró (Imaherô),
a mais velha e Denaque (Denakê), a mais nova.
Num anoitecer de céu estrelado, Imaeró viu
Taina-can (Tahina-can) brilhar tão bela que não
se conteve e disse: “Pai, é tão bonito aquilo!
Eu queria possuí-lo!”. O pai riu e disse-lhe que
Taina-can estava tão longe que ninguém o poderia
alcançar. Contudo acrescentou: “Só se ele,
ouvindo-te, quiser vir.” Alta noite, quando
todos dormiam, a moça sentiu que alguém estava
ao seu lado. Sobressaltada, indagou: “Quem és e
o que queres de mim?” “Eu sou Taina-can, ouvi
que me querias e vim. Casa comigo, sim?" Imaeró
acordou os pais e acendeu o fogo. Taina-can era
um velho, de cabelos brancos e pele enrugada.
Vendo-o à luz da fogueira, Imaeró disse: “Não te
quero para meu marido. Eu quero um moço forte e
bonito.” Taina-can ficou muito triste e chorou.
Então, Denaque, compadeceu-se dele e procurou
consolá-lo dizendo: “Pai, eu me caso com ele!”
E, o casamento realizou-se, com grande alegria
do velhinho. Depois de casado, Taina-can disse:
“Vou trabalhar para te sustentar, Denaque. Vou
fazer um roçado para plantar coisas boas, que
carajá ainda não possui nem conhece.” E foi ao
rio Araguaia (Berô-can), dirigiu-lhe a palavra
e, entrando nele, ficou com as pernas abertas,
de maneira que as águas passavam entre elas.
Curvado para a corrente, de vez em quando
mergulhava as mãos e apanhava as boas sementes
que iam jogando rio abaixo. Assim, as águas
deram-lhe um punhado de milho cururuca, feixes
de raiz de mandioca, e muito mais. Saindo do
rio, ele disse a Denaque: “Vou derrubar mato
para fazer roçado. Porém, não venhas me ver no
trabalho, fica em casa, cuidando da comida"
Taina-can foi, mas demorou tanto que,
preocupada, Denaque resolveu desobedecer às
recomendações e foi, de mansinho, procurá-lo.
Ah! Que surpresa! Quem estava ali a trabalhar
era um belo moço, alto, cheio de força e de
vida, que tinha no corpo os enfeites e as
pinturas que os carajá ainda hoje usam. Denaque
não se conteve, louca de alegria correu a
abraçá-lo. Depois, o levou consigo para casa,
contente por mostrar aos pais como seu esposo
era na verdade. Foi então que Imaeró o desejou
também e disse a Taina-can: “Tu és meu marido,
pois vieste para mim e não para Denaque.” Mas
Taina-can respondeu-lhe: “Só em Denaque
encontrei bastante bondade, para ter pena do
pobre velhinho. Agora não te quero, só Denaque é
minha!” Imaeró, de despeito e inveja, soltou um
grito, caiu no chão e no lugar dela, viu-se um
Urutau, pássaro que ainda hoje dá um grito
triste e tão forte que parece ser uma ave muito
maior. Foi assim que a nação carajá aprendeu com
Taina-can a plantar o milho, o ananás, a
mandioca e outras coisas boas que antes não
conhecia. (Impressões da Comissão Rondon,
Amilcar B. de Magalhães, Cia. Editora Nacional,
RJ, 1942)
e) Estrela Vésper (lenda Carajá) - Os índios carajás, ao se ausentarem de sua aldeia para
caçar, recomendavam às esposas que não saíssem
da aldeia. No início, a ordem era cumprida. Mas,
depois de algum tempo, as esposas desobedeceram
os índios. Esperavam que eles saíssem e partiam
em direção ao Rio Araguaia para apanharem ovos
de tracajá (espécie de tartaruga pequena). Um
belo dia, o filho do cacique, muito curioso,
seguiu os passos de sua mãe. E a viu conversando
com um desconhecido. Logo descobriu que era o
Cananxiué, o famoso deus dos carajás. Depois de
algum tempo, sua mãe apareceu grávida. E deu à
luz a mais bela menina já nascida na aldeia. O
marido, intrigado, passou a maltratar a esposa.
Enquanto isso, a menina crescia lindamente,
chamando a atenção de todos da aldeia. Numa bela
noite, enluarada e de muitas estrelas, a
indiazinha resolveu contemplar o céu na praia do
Rio Araguaia. Chegando lá, olhou para o alto e
ficou enamorada de uma estrela. Parecia que ela
piscava para a indiazinha. Era a maior e mais
linda das estrelas, a Estrela D'alva que na
língua carajá chama-se Tainan-Racã. A jovem
imaginou possuir aquela estrela e, Cananxiué, o
seu protetor, sabendo do seu desejo logo o
realizou. Mas o sonho não foi o que ela
esperava. Quando a estrela desceu até a praia,
transformou-se num Matucari que, em carajá,
significa velhinho. Mesmo assim, eles se
casaram. Todos os dias, o velhinho acordava
cedo, pegava seu cesto e ia à roça plantar e
colher. Antes de partir ele falava à esposa para
não sair de casa antes de sua volta. Com o
passar dos dias, ela não suportou a curiosidade
e seguiu seu marido. Chegando à roça, teve
grande surpresa. Seu marido se transformara num
jovem carajá, bonito e forte. Espantada,
imediatamente gritou: "Por que você não é assim
o tempo todo?" Aborrecido, o marido
transformou-se novamente em estrela e voltou
para o céu. A índia ficou sozinha, triste, não
comia e nem dormia mais. Só ficava deitada na
rede. Cananxiué, penalizado, transformou-a numa
pequena estrela e lhe disse: "Agora irás ficar
no céu, ao lado de seu esposo, e passarás a se
chamar Tainazinha."
f) Constelações indígenas – O professor de
física da Universidade Federal do Paraná (UFPR)
Germano Affonso, descobriu que as principais
constelações dos tupinambás, que habitavam a
costa brasileira no século 16, são comuns a
diversas outras etnias do Brasil. Entre elas,
destacam-se as constelações de Ema, Anta, Homem
Velho e Veado, de um total de cerca de cem
grupos de estrelas. As constelações indígenas,
segundo ele, têm funções práticas semelhantes às
das constelações ocidentais: marcar a passagem
do tempo, as estações do ano e servir como
pontos de orientação. Mas são maiores, mais
facilmente reconhecíveis e formadas não só a
partir de estrelas, como de manchas na Via
Láctea (Caminho de Anta ou Caminho dos
Espíritos, para os tupinambás). A cultura
ocidental reconhece, atualmente, a existência de
88 constelações. O maior número delas entre os
povos indígenas, segundo ele, tem uma
explicação: "Para os índios, a terra nada mais é
que um reflexo do céu. Tudo que há aqui tem de
ter estado lá. No céu há necessariamente mais
coisas que na terra", afirmou. Entre essas
"coisas", "constelações espirituais", que seriam
entidades benéficas e maléficas e que,
dependendo de sua aparição no céu, influenciam a
vida dos povos indígenas. A constelação da Ema,
é comum a quase todos os povos do Brasil. Sua
aparição por inteiro no céu quando anoitece,
para os índios do sul do país, indica a chegada
do inverno, e, da seca, para os índios próximos
ao equador. O Veado é a estação que marca o
outono, e a Anta, a primavera. A constelação do
Homem Velho indica a chegada do verão ou da
estação chuvosa. Constituída por estrelas do
escudo de Órion, ela é semelhante a um homem
velho segurando um bastão para se equilibrar.
Conta o mito guarani que essa constelação
representa um homem casado com uma mulher muito
mais jovem do que ele. Sua esposa ficou
interessada no irmão mais novo do marido e, para
ficar com o cunhado, matou o marido,
cortando-lhe a perna na altura do joelho
direito. Os deuses ficaram com pena do marido e
o transformaram em uma constelação. A
constelação da Ema se localiza numa região do
céu limitada pelo Cruzeiro do Sul e Escorpião.
Sua cabeça é formada pelo Saco de Carvão,
nebulosa escura que fica próxima à estrela
Magalhães. A Ema tenta devorar dois ovos de
pássaro que ficam perto de seu bico,
representados pelas estrelas alfa Muscae e beta
Muscae. As estrelas alfa Centauro e beta
Centauro estão dentro do pescoço da Ema. Elas
representam dois ovos grandes que a Ema acabou
de engolir. Uma das pernas da Ema é formada
pelas estrelas da cauda de Escorpião. As manchas
claras e escuras da Via Láctea ajudam a
visualizar a plumagem da Ema. Conta o mito
guarani que a constelação do Cruzeiro do Sul
segura a cabeça da Ema. Caso ela se solte,
beberá toda a água da Terra e morreremos de seca
e sede (Fontes: Jornal da USP; Scientific
American Brasil; Assessoria de Imprensa UFPA)
g) Origem das estrelas (lenda Bororo) - Entre os
índios, os homens passam os dias na caça e na
pesca. São as mulheres que tecem as redes, vão à
roça plantar mandioca e conseguem outros
alimentos. Numa tarde, algumas mulheres saíram
para procurar milho. Caminharam até a noite e só
acharam uns pezinhos mirrados. Voltaram à tribo
com o punhadinho de espigas. Julgando que teriam
mais sorte, na tarde do dia seguinte, levaram
junto um menino. O curumim andava sempre na
mesma direção. Parecia saber onde estava o que
procurava. De fato, pouco tempo depois,
depararam com um campo coberto de pés de milho.
As índias trataram de colher as espigas,
esquecendo do menino que, sorrateiramente,
apanhou algumas para si. Ele voltou correndo
para casa: "Vovó podes fazer um pão para mim?" A
velhinha concordou. Debulhou os grãos, moeu-os e
preparou a massa. O curumim foi chamar os
companheiros. Vieram. O pão já estava pronto.
Comeram-no como se estivessem quase a perecer de
fome. Depois, puseram-se a cismar: "E se as
nossas mães descobrissem o que fizemos?"
Decidiram cortar a língua e os braços da avó do
menino: ela poderia contar qualquer coisa...
"Vamos cortar também a língua do papagaio!"
Preveniu outro, temendo que a pobre ave
repetisse o que tinha ouvido. Tendo feito isso,
ficaram ainda com mais medo. Se as mamães
voltassem agora, como iriam explicar o que
acontecera? Resolveram fugir. Pediram a um
colibri que pegasse a ponta de um cipó:
"Amarra-o no galho de alguma árvore lá do céu!"
Os indiozinhos agarraram-no e começaram a subir,
segurando-se nos nós. Enquanto isso, as mulheres
retornaram. A velha não podia falar. Viram o
cipó: lá estavam os meninos; gritaram para que
eles que descessem; os garotos subiram mais
depressa. As mães começaram a trepar também.
Quando elas chegaram ao céu, os meninos cortaram
a sua "escada". As índias caíram e
transformaram-se em feras. Os curumins viraram
estrelas, por castigo. Foram obrigados a ficar
eternamente olhando para a terra, vendo a
desgraça de suas mães. (Lendas Indígenas -
Gráfica Ed. Aquarela, SP, 1962) |