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Design de Lenise
Resende
Lendas das Águas
Edição e Pesquisa de Lenise Resende
a) A primeira água e Origem do rio Amazonas
(lenda Maué) - Icuamã, Ocumató e *Onhiamuaçabê
eram irmãos. Um dia, Icuamã deu uma festa e
convidou todos os bichos. Os índios-peixe, Jeju
e Mantrinchão, ficaram na porta conversando. O
filho de Icuamã, ficou curioso e aproximou-se
para ouvir o que eles diziam. Falavam
erradamente. O indiozinho começou a corrigi-los
e eles, de raiva, fizeram tal feitiçaria que ele
morreu. Icuamã jurou a si mesmo que vingaria a
morte do filho. Levou-o até uma clareira, no
meio da floresta; depositou-o no chão, dividiu-o
pela metade e enterrou os pedaços. Alguns dias
depois, brotaram plantinhas; de um pedaço nasceu
o timbó-urucuócuhup, o falso timbó; do outro,
nasceu o timbó-ocuhén, o verdadeiro. Perto da
casa de Ocumató, morava Sucuri-Tenon, cujo
filho, o Sucuri-Pacu, estava proibido pelo pai
de ir ver seus tios feiticeiros, Jeju e Traíra.
Mas o menino ouviu dizer que Jeju tinha
inventado a primeira água e foi à casa deles. A
tia lhe mostrou uma pequena poça. O menino achou
muito pequeno. A tia, zangada, fez feitiçaria e
ele, meio tonto, voltou para casa. Sucuri-Tenon
logo adivinhou o que havia acontecido. "É
feitiçaria! Quem o enfeitiçou tem o remédio. Vai
buscá-lo." O curumim obedeceu. Retornou a casa
dos tios. Nesse tempo, o Jeju regressou, bebeu
um pouco de água da poça e cuspiu-a em uma cuia.
Daí a pouco, apareceu o indiozinho; queixava-se
de dor de cabeça. Jeju deu-lhe a água da cuia.
Quando ele terminou de tomá-la, sua barriga doía
muito e começava a estufar. Implorou ao tio que
passasse o maracá de pajé (chocalho) sobre sua
barriga, para aliviar a dor. Jeju atendeu.
Passou o maracá 1, 2, 3 vezes. E a barriga
explodiu. Dela, verteu água que foi crescendo,
encheu a casa, saiu pelo terreiro, sempre
subindo. Jeju correu. Ao ver a água pela
primeira vez, os índios-pássaros voaram sobre
ela, desceram nos galhos da margem e ficaram a
olhar. O sapo não esperou e foi para o fundo,
cantando de satisfação. É por isso que ele tem,
ainda hoje, a voz rouca. Chamado por Jeju, o
Sucuri-Tenon veio saber o que havia. O
feiticeiro pediu-lhe que fosse andando na
frente, abrindo caminho para a água. "Mas não
olhe para trás!" advertiu-o. O Sucuri não deu
importância e prosseguiu. Tanto olhou para trás
que os rios ficaram com o curso todo sinuoso.
Atraídos pelo rio, os índios-peixe mergulharam.
A notícia espalhou-se e Icuamã descobriu que
foram os índios-peixe que mataram seu filho. Com
Ocumató e muitos índios, organizou um mutirão.
Pegaram timbó e entraram no rio, batendo a
planta na água. Envenenados, os peixes vieram à
tona mortos. O índio-onça e a mulher não
gostaram daquilo. Também mergulharam.
Imediatamente, o timbó perdeu a força. Icuamã,
com raiva, agarrou os dois e matou-os. Arrancou
seus olhos e enterrou-os. Deles nasceram as
castanheiras. Assim surgiu o rio Amazonas, cujo
volume de água é superior ao de todos os outros
rios do mundo e, é um sistema sinuoso de canais,
na maior parte de seu curso através da floresta.
Aí vive o Sucuri-Tenon que, de tanto dar voltas,
terminou virando cobra. (Lendas Indígenas -
Gráfica Ed. Aquarela, SP, 1962) *Onhiamuaçabê -
o guaraná é fruto brotado dos olhos do filho
dessa índia.
b) Origem do rio Amazonas - Havia, na
selva amazônica, um casal muito apaixonado que
sonhava casar-se. Ela vestia-se de prata, seu
nome era Lua e era a dona da noite. Ele
vestia-se de ouro, seu nome era Sol e era dono
do dia. Havia, porém, um obstáculo: se eles se
casassem o mundo se acabaria. O amor ardente do
sol queimaria a terra. O choro da lua apagaria o
fogo mas inundaria a terra. Apesar de
apaixonados, como poderiam viver juntos? Assim,
um dia, eles se separaram e, saudosa, a Lua
chorou durante um dia e uma noite. Suas lágrimas
caíram na terra, escorreram pelos morros e
chegaram ao mar. Mas o mar não queria aceitar
tanta água e esbravejou. Então, por encanto, as
lágrimas da lua escavaram um imenso vale e um
grande rio surgiu, o rio Amazonas.
c) Boitatá e o dilúvio (lenda gaúcha) -
Em tempos mui antigos, houve um grande dilúvio,
que afogou até os cerros mais altos. Pouca gente
e poucos bichos escaparam - quase tudo morreu.
Mas a Cobra Grande, chamada pelos índios de
Mboi-guaçu, escapou. Tinha se enroscado no galho
mais alto da mais alta árvore e lá ficou até que
a enchente deu de si e as águas começaram a
baixar e tudo foi serenando... Vendo aquele
mundaréu de gente e de bichos mortos, a
Mboi-guaçu, louca de fome, achou o que comer.
Mas, coisa estranha! só comia os olhos dos
mortos. Diz-que os viventes, gente ou bicho,
quando morrem guardam nos olhos a última luz que
viram. E foi essa luz que a Mboi-guaçu foi
comendo, foi comendo... E aí, com tanta luz
dentro, ela foi ficando brilhosa, mas não de um
fogo bom, quente e sim de uma luz fria, meio
azulada. E tantos olhos comeu e tanta luz
guardou, que um dia a Mboi-guaçu arrebentou e
morreu, espalhando esse clarão gelado por todos
os rincões. Os índios, quando viam aquilo,
assustavam-se, não mais reconhecendo a
Mboi-Guaçu. Diziam, cheios de medo: "Mboi-tatá!
Mboi-tatá!", que lá na língua deles queria
dizer: "Cobra de fogo! Cobra de fogo!' E até
hoje o Boitatá anda errante pelas noites do Rio
Grande do Sul. Ronda os cemitérios e os
banhados, de onde sai para perseguir os
campeiros. Os mais medrosos disparam, mas para
os valentes é fácil: basta desapresilhar o laço
e atirar a armada em cima do Boitatá. Atraído
pela argola do laço, ele se enrosca todo, se
quebra e some. (Mitos e Lendas do RS, Antônio
Augusto Fagundes)
d) O dilúvio (lenda Bororo)
- Alguns
índios gostam de pescar construindo uma
armadilha dentro do rio. Assim, não precisam
ficar perto e a quantidade de peixe que pegam é
maior. Um dia, Brilho-dos-Olhos, um guerreiro
bororo, foi ver se havia alguma coisa na
armadilha. Nada de peixes. Com grande surpresa
para ele, lá estava apenas um espírito amarelo,
Jakomea. O índio aproximou-se com cuidado, para
não fazer ruído, e flechou o espírito que,
enfurecido, ordenou às águas que crescessem.
Brilho-dos-Olhos prevendo o que aconteceria,
pôs-se a correr. Por onde passava, gritava
avisando a todos que as águas estavam aumentando
e iriam cobrir tudo. Na sua oca, ele pegou uma
brasa e subiu a montanha. Ninguém acreditou
nele. A enchente avançou rapidamente e os homens
morreram afogados. O guerreiro conseguiu chegar
no cume da montanha. As águas cresciam sempre
mas, atingindo o pico do monte, pararam.
Brilho-dos-Olhos fez uma fogueira com a brasa
que trouxera de casa. Apanhou umas pedras e
arrumou-as em cima, para aquecê-las. Conforme
iam ficando quentes, atirava-as n’água. A
inundação recuou devagar. Quanto mais pedras ele
jogava, mais as águas baixavam até que voltaram
ao seu lugar. O guerreiro desceu a encosta e
começou a andar a procura dos amigos. Não havia
ninguém. Assobiou varias vezes sem obter
resposta. Subitamente, alguém respondeu ao
assobio. Era uma corça. Todos haviam morrido
mesmo e ele casou-se com a corça. Tiveram uma
porção de filhos: alguns tinham a cara e os pés
de cervo; outros, somente o pelo do corpo era de
cervo; enfim, nasceram alguns iguaizinhos aos
índios. Brilho-dos-Olhos, dividiu-os em 2
grupos: os homens de um deveriam sempre casar
com as mulheres do outro grupo. Esse é um hábito
que os bororos ainda tem. (Lendas Indígenas -
Gráfica Ed. Aquarela, SP, 1962)
e) O dilúvio (lenda Tupinambá) -
Tamandaré (Tamendonaré) era o Noé dos
tupinambás, filho de Sumé e irmão de Aricute.
Tamandaré vivia com Aricute numa aldeia. Ao
regressar de uma expedição guerreira, Aricute
insultou Tamandaré, atirando contra sua cabana o
braço de um inimigo que havia decepado. A aldeia
desapareceu e Tamandaré, batendo com o pé no
chão, fez surgir uma fonte d’água que inundou a
Terra, cobrindo as serras e as árvores.
Tamandaré subiu, então, numa palmeira bem alta,
com a família e Aricute subiu num jenipapeiro,
também, com a mulher e os filhos. Escapando do
dilúvio, os irmãos se separaram e repovoaram a
Terra. De Tamandaré vêm os tupinambás e de
Aricute, os tomimis. Tamandaré, que é o Noé dos
indígenas, significa aquele que repovoou a
Terra. (Dicionário de Folclore para Estudantes)
f) O dilúvio (lenda Tupinambá) - Sumé era
o pai dos gêmeos Tamendonaré (Tamandaré) e
Aricute. Tamendonaré era calmo e vivia para
cuidar da família. Aricute era um guerreiro
valente que gostava de guerrear. Certo dia, ao
regressar de uma batalha, ele insultou o irmão,
atirando contra sua cabana o braço de um inimigo
que havia decepado. Irritado,Tamendonaré bateu
com o pé no chão, fazendo nascer uma fonte d’água
que inundou a Terra. Quando as águas começaram a
subir, os índios procuraram o cume dos montes,
tentando salvar-se. Tamendonaré, que já fora
advertido por Tupã da iminência do dilúvio,
pediu aos fugitivos que permanecessem na
planície. Mas ninguém lhe ouviu. Somente
Tamendonaré ficou e subiu com sua mulher numa
palmeira bem alta. A Terra desapareceu e até as
montanhas desapareceram. Só se avistava água e,
o colmo da palmeira que sustentava Tamendonaré e
sua mulher, flutuando á tona. Quando cessou a
inundação, eles desceram e povoaram novamente
toda a Terra. Os tupinambás acreditam que
descendem de Tamendonaré.
g) Cataratas do Iguaçú (PR) - Numa tribo
do Paraná, vivia uma cobra enorme, a Boiúna
Capei, que aterrorizava a todos. Para que a
Boiúna não atacasse os índios, o cacique
prometeu que lhe daria sua filha Naipi em
casamento. A jovem Naipi tinha bom coração e
queria salvar a tribo, mas era apaixonada por
Titçatê, um valente guerreiro. Quando chegou o
momento de Naipi ser entregue à Boiúna, a jovem
rompeu em pranto e, de joelhos, suplicou ao pai
que não a levasse. Titçatê, cheio de coragem,
colocou-se à frente da cobra grande, empunhando
arco e flecha. Vendo que era rejeitada pela
formosa índia, Boiúna ficou furiosa. Usou seus
poderes para transformar a moça numa cachoeira
chorosa. E o guerreiro foi transformado numa
linda planta de flores roxas, que ficou boiando
sobre a água. Vendo a forma como o amor dos dois
jovens foi destruído, os outros índios
encheram-se de coragem. Atacaram a Boiúna e
arrancaram-lhe a cabeça. Como castigo por sua
maldade, Tupã ordenou que a imensa cabeça da
cobra fosse pendurada no céu durante a noite. E,
na forma de Lua, iluminasse o amor de Naipi e
Titçatê.
h) Cataratas do Iguaçú (lenda Kaingang) -
Os índios Kaingang que habitavam às margens do
rio Iguaçu (PR) acreditavam que o mundo era
governado por Mboi, um deus que tinha a forma de
uma serpente gigante, vivia no fundo das águas
do rio e era filho de Tupã. O cacique desta
tribo chamado Igobi, tinha uma filha, Naipi,
muito bonita. Devido a sua beleza, Naipi seria
consagrada ao deus Mboi e passaria a viver
somente para seu culto. Havia porém, na tribo,
um jovem guerreiro chamado Tarobá, que ao ver
Naipi por ela se apaixonara. No dia da festa de
consagração da jovem, enquanto o cacique e o
pajé bebiam o cauim (bebida de milho fermentado)
e os guerreiros dançavam, Tarobá fugiu com Naipi
numa canoa. Quando soube da fuga do casal, Mboi
ficou furioso. Penetrou nas entranhas da terra
retorcendo seu corpo, até criar uma imensa fenda
no rio que formou uma catarata gigantesca.
Envolvidos pelas águas dessa imensa cachoeira,
canoa e os fugitivos caíram de grande altura,
desaparecendo para sempre. Diz a lenda que Naipi
foi transformada em uma das rochas centrais das
Cataratas, perpetuamente fustigada pelas águas
revoltas. E Tarobá foi transformado numa
palmeira situada à beira do abismo e inclinada
sobre a garganta do rio. Debaixo dessa palmeira
acha-se a entrada de uma gruta onde o monstro
vingativo vigia eternamente as duas vítimas.
i) Cachoeira Véu da Noiva (PR) - O pai da
índia Pingo d'Água avisou-a que havia sido prometida
para Pucaerin, o bravo caçador. A jovem, assustada,
disse a seu pai que não amava o valente índio, e sim
Itaerê. Ela suplicou ao pai que reconsiderasse a
decisão mas ele respondeu que estava decidido pois,
tal casamento, era conveniente à paz entre as
tribos. A bela índia não se conformou e pediu à Tupã
que a salvasse do triste destino. Infelizmente, as
preparações para o festejo prosseguiram. Pingo d'Água
foi ficando cada vez mais angustiada. Acreditava que
seu amado Itaerê viria e ambos fugiriam para o
planalto dos pinheirais. Mas ele não apareceu.
Quando começou a celebração, o grande-chefe iniciou
a cerimônia, ordenando que trouxessem a noiva. Houve
demora, até que vieram avisar que ela não se
encontrava na oca. Imediatamente, os índios saíram
para procurá-la. Todos desconfiavam que Itaerê a
tinha raptado. Seguiram o rastro da moça até perto
da cachoeira, de onde as águas caíam a grande
altura. Pingo d'Água não mais apareceu. Dias depois,
uma criança correu para avisar a tribo que havia um
corpo boiando próximo às rochas em que as águas da
cachoeira despencavam. Era Pingo d'Água, a noiva que
acabara morrendo pelo amor de outro homem. A
cachoeira recebeu, então, o nome de Véu da Noiva.
j) Riacho Ibicuiretã (RS) - Duas jovens
índias Paraí e Obiricí, amavam o cacique Abaetê.
Este, por sua vez, também gostava muito delas e
não conseguia decidir com quem se casaria. Um
dia, o guerreiro suplicou a Tupã que lhe
ajudasse a resolver o difícil caso. Então, em
sonho, recebeu os conselhos de Tupã. Na manhã
seguinte, ele comunicou as jovens que seriam
submetidas a uma prova com arco e flexas. E,
aquela que atingisse o alvo escolhido,
tornar-se-ia sua esposa. Obirici, nervosa, com
medo de perder a disputa e seu amado, errou o
alvo. Amargurada e triste, não teve coragem de
abandonar o lugar onde fora derrotada. Chorando
muito, ergueu as mãos para o céu e suplicou a
Tupã que lhe enviasse a única salvação possível
- a morte. Suas lágrimas correram dia e noite
sem parar. O solo encharcado, deslizou e
transformou-se num riacho chamado Passo da Areia
ou Ibicuiretã (rio de areia). Tupã, penalizado,
veio buscá-la, mas as águas de suas lágrimas
continuaram a rolar no local. (Nota: Hoje, o
Passo da Areia é um bairro urbanizado da cidade
de Porto Alegre e o riacho não mais existe) |