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Imagens do livro "Viagem
pitoresca através do Brasil", 1834, do pintor Johann Moritz
Rugendas
Design atual Lenise
Resende
Cultura Popular Brasileira e Folclore
Edição e Pesquisa de Lenise Resende
(página 1c)
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Raça negra - africanos
Na constituição da população brasileira, a raça negra é
representada pelos africanos trazidos para o Brasil, a
partir de 1530, como escravos para o serviço nas
plantações e nos engenhos de açúcar. Eles eram vendidos
em escala crescente por mercadores portugueses. Esse
comércio tornou-se um negócio lucrativo para os
traficantes e vantajoso para os proprietários. O alto
preço do escravo africano era amortizado pelo tempo de
cinco a dez anos de trabalho forçado. Por isso, do
século XVII ao XIX, os negros cativos formaram a grande
massa trabalhadora da agricultura, da mineração e de
outras atividades econômicas.
• Tráfico de escravos - O comércio de escravos trouxe
para o Brasil negros de diversas regiões da África.
Quanto às áreas de origem, dois grupos se destacaram: Os
bantos e os nagôs (sudaneses).
Banto é família lingüística e inclui 274 línguas e
dialetos aparentados. Os bantos, povos rurais, provinham
de Angola, Moçambique e Congo, e subdividiam-se em:
cambindas, benguelas, congos e angolas. Eram
agricultores, mas também viviam da caça e da pesca, e
conheciam a metalurgia. Formaram o reino do Congo que
dominava grande parte do noroeste do continente
africano. No Brasil foram para para MG, GO, RJ E SP.
Nagô é o nome dado ao iorubano ou a todo negro da Costa
dos Escravos que falava ou entendia o iorubá - uma
língua cantada, como o sotaque baiano. Os nagôs vieram
das regiões da África Ocidental que correspondem
atualmente a países como Sudão, Nigéria, Benin, Burkina,
Costa do Marfim, Gana, Guiné e Togo. Vieram para o
Brasil os minas, mandingas, hauçás (haussás), bornús e
kanúris. Os chamados malês, muçulmanos de hábitos
refinados, provinham das tribos do norte da Nigéria. Os
mestres malês (alufás, em iorubá) encarregavam-se da
transmissão da doutrina islâmica, bem como do ensino da
língua e escrita árabes.
Na África não existiu nenhuma nação Jeje. A palavra Jeje
vem do iorubá "adjeje" que significa forasteiro, e
recebeu uma conotação pejorativa como “inimigo”, por
parte dos povos conquistados pelos reis de Daomé. Esse
reino, situado onde agora é o Benin, obteve lucro
colaborando com o tráfico de escravos. Quando os
daomeanos chegaram ao Brasil como escravos, aqueles que
já estavam aqui reconheceram-nos como inimigos. O que é
chamado de nação Jeje é o candomblé formado por povos da
região de Daomé.
Os nagôs desembarcaram principalmente em Salvador (BA),
depois, muitos foram levados para trabalhar na extração
do ouro em Minas Gerais. A prestigiosa influência social
e religiosa da etnia yorubá-nagô na Bahia, deve-se ao
enorme contingente de escravos dessa região trazidos
para Salvador, nas últimas décadas do tráfico negreiro.
Nessa ocasião, os núcleos familiares não foram tão
desmembrados como no início da escravatura e permitiram
uma maior manutenção da cultura e dos costumes.
• Sociedade colonial - A base da economia colonial era o
engenho de açúcar. O senhor de engenho era um fazendeiro
proprietário da unidade de produção de açúcar. Utilizava
a mão-de-obra africana escrava e tinha como objetivo
principal a venda do açúcar para o mercado europeu.
O engenho era formado pela fazenda, que abrigava as
terras para o cultivo; a casa-grande, moradia do senhor
e sua família; a senzala, onde dormiam os escravos; a
capela; a moenda e as casas dos agregados. Os agregados
eram trabalhadores livres que recebiam um salário por
seu trabalho: feitor, mestre-do-açúcar (responsável pela
qualidade do produto), caixeiro (responsável pelas
caixas de açúcar), barqueiros, canoeiros, carpinteiros,
carreiros, ferreiros, pedreiros, pescadores, vaqueiros e
lavradores. Os lavradores ou roceiros, além de
responsáveis pelo cultivo da cana, cuidavam de pequenas
roças de milho, mandioca ou feijão, que auxiliavam na
subsistência. O conforto da casa grande contrastava com
a miséria e péssimas condições de higiene da senzala.
A maior parte dos escravos trabalhava no cultivo da
cana. Outra parte era utilizada na moenda da cana. As
escravas também trabalhavam na roça desde pequenas,
catando ervas e enfeixando a cana. Nos engenhos moíam a
cana e coziam o melado. Na casa-grande realizavam as
tarefas domésticas: cozinhavam, lavavam, costuravam e
arrumavam. Na senzala, cuidavam dos maridos e filhos.
Algumas escravas eram, também, parteiras ou conheciam os
segredos das plantas para curar mazelas e doenças,
tornando-se benzedeiras ou curandeiras. Os escravos
recebiam os domingos e dias santos para repousar, lavar
sua roupa ou trabalhar nas roças produzindo alimentos
para seu consumo. Muitos deles obtinham recursos extras
comercializando os excedentes.
Os negros já aculturados eram chamados de "ladinos".
Trabalhavam na casa-grande, realizando tarefas
domésticas, onde recebiam um tratamento melhor, e
entendiam e falavam o português. Os escravos chamados
"boçais", eram os recém-chegados da África e costumavam
ser utilizados nos trabalhos da lavoura. Além de ensinar
a língua, os costumes dos brancos e informar sobre o
sincretismo nos cultos religiosos, os ladinos ensinavam
aos boçais a técnica e a rotina do plantio da cana e do
fabrico do açúcar.
A partir de meados do século XVIII, com o crescimento da
população e da economia urbana, os escravos passaram a
ser utilizados em outras funções nas cidades. Empregados
ou alugados por seus senhores para produzir, vender ou
prestar serviços a terceiros, eram os escravos de ganho.
Para complementar o orçamento doméstico de seus
senhores, escravas saíam da cozinha para as ruas com
comida feita em casa para ser vendida. Eram as
vendedoras ambulantes. Outras, transformavam-se em
amas-de-leite, damas de companhia, lavadeiras. Os
escravos transformavam-se em ajudantes de armazéns,
quitandas e lojas, alfaiates, barbeiros, barqueiros,
carpinteiros, carregadores, cavalariços, marceneiros,
pedreiros, sapateiros, quitandeiros e vendedores
ambulantes.
• Terapeutas populares - No período colonial, as pessoas
ricas dos centros urbanos, utilizavam os serviços de
saúde prestados pelas Santas Casas de Misericórdias,
hospitais militares e enfermarias das ordens religiosas.
Mesmo assim, esses institutos atuavam sempre de forma
precária, com instalações físicas inadequadas e com uma
grande carência de profissionais médicos. As pessoas
pobres resolviam seus problemas de saúde com os
boticários, cirurgiões-barbeiros, barbeiros, sangradores
e curandeiros. Em 1808, com a transferência da Corte
para o Brasil, foi recriada no Rio de Janeiro, a sede da
Fisicatura mor, que elaborava os regimentos para os
ofícios relacionados às "artes de curar". A Fisicatura
mor existiu até 1828. Integrantes do grupo mais
prestigiado, os médicos (físicos) prescreviam remédios,
os cirurgiões intervinham no corpo doente, e os
boticários manipulavam e vendiam os medicamentos.
Integrantes do grupo que desempenhava atividades menos
consideradas eram os sangradores, as parteiras e os
curandeiros. Aplicar ventosas e sanguessugas, sarjar
(cortar a pele com o sarjador), e tirar dentes, eram
consideradas atividades mecânicas, por isso, próprias de
escravos e alforriados. Os sangradores, barbeiros,
cirurgiões-barbeiros, parteiras e curandeiros, eram em
sua maior parte escravos e forros. O sangrador realizava
sangrias (retirava o sangue) através de sanguessugas
(bichas) e ventosas (copinhos vendidos em farmácias,
esquentados com chama de álcool e aplicados sobre a
pele, fazendo vácuo, nos locais doloridos). O sangrador
e algebrista tratava de fraturas, luxações e torceduras.
O barbeiro, além de cortar e pentear os cabelos e
barbear, alugava sanguessugas para os médicos e
clientes, fazia curativos e operações cirúrgicas pouco
importantes. Por terem grande habilidade manual, os
barbeiros faziam também extrações dentárias porque, por
receio e desconhecimento, muitos cirurgiões não
intervinham na boca. Somente os pobres recorriam aos
cirurgiões negros que, além de aplicar ventosas,
indicavam remédios e vendiam talismãs. A parteira
ajudava as mulheres a dar à luz. O curandeiro cuidava de
doenças leves e aplicava remédios feitos com plantas
medicinais. Os sangradores deveriam apresentar uma
licença da Fisicatura mor, se quisessem trabalhar em
navios, onde sua presença era fundamental pois, muitas
vezes, era o único recurso terapêutico para quem
estivesse doente. Era vantajoso levar africanos como
sangradores nos navios negreiros, devido a facilidade de
comunicação com os novos escravos. Pessoas em posições
sociais mais elevadas, só pediam licença de sangrador,
porque era obrigatória a quem quisesse oficializar-se
como cirurgião.
• Mineração - Na passagem do século XVII para o XVIII,
foram descobertas ricas jazidas de ouro no centro-sul do
Brasil. O chamado ciclo do ouro foi responsável por
profundas mudanças na vida colonial. O comércio interno
de escravos foi intensificado e 600 mil negros foram
levados do Nordeste para trabalhar na extração do ouro
em Minas Gerais. Os negros minas, fortes e resistentes,
eram maioria no trabalho minerador em Vila Rica (atual
Ouro Preto), MG. Os escravos trabalhavam por tarefa e,
muitas vezes, podiam ficar com uma parte do ouro
descoberto. Com isso, tinham a chance de comprar sua
liberdade. Mas a grande maioria passou a viver em
condições bem piores do que no período anterior,
escavando em verdadeiros buracos onde até a respiração
era dificultada. Trabalhavam também na água ou atolados
no barro no interior das minas.
• Resistência à escravidão - A inserção da população
negra na sociedade se deu pelo trabalho, base da
organização econômica e da convivência familiar, social
e cultural. A miscigenação avançou, com um número cada
vez maior de mulatos. Nasceu uma religiosidade popular
em torno das irmandades católicas e dos terreiros de
Umbanda e Candomblé. Em 1800, cerca de dois terços da
população do país – 3 milhões de habitantes – eram
formados por negros e mulatos, cativos ou libertos. Os
escravos, no entanto, mantinham-se em condição social
inferior, e a escravidão, perpétua e hereditária,
permanecia regulada pela lei da alforria – concessão da
liberdade pelo proprietário mediante indenização. A
servidão desqualificava o trabalho – sobretudo o manual
–, considerado pelas elites como "coisa de negros". Os
cativos resistiam a essa condição de inferioridade e de
exploração fugindo das fazendas para os quilombos nos
sertões e rebelando-se nas cidades. (Fonte: Almanaque
Abril, 2001)
• Quilombos – A face mais visível da resistência à
escravidão eram os quilombos - comunidades de escravos
fugidos que tentaram sobreviver à margem da sociedade
colonial. Além deles, outros conflitos expressaram a
luta contra a escravidão e levaram ao movimento
abolicionista. São poucas as cidades brasileiras mais
antigas que não têm um bairro ou algum lugar de
referência à existência de ajuntamentos de escravos
negros e mulatos fugidos. É difícil calcular o número de
quilombos formados durante o período da escravidão,
porque muitos não deixaram registro e alguns
remanescentes ainda estão sendo descobertos. Pequenos ou
grandes, próximos ou afastados dos vilarejos e cidades,
mais hostis ou mais amigáveis, aceitando ou não
partilhar seu espaço com brancos e índios, os quilombos
eram sempre vistos com temor e mantidos à distância pela
sociedade dominante. Isso não impediu que mantivessem
relações com essa mesma sociedade, de trocas comerciais
e casamentos à participação nas celebrações religiosas e
festas populares. (Fonte: Almanaque Abril, 2001)
• Abolição da escravatura - Na segunda metade do século
XIX cresceu a campanha abolicionista no país. A
escravidão foi extinta em 1888, mas sua herança
permaneceu na sociedade brasileira, na forma de
discriminação racial, social e econômica de negros,
mulatos e pobres em geral. Os negros encontraram
dificuldade para integrar-se à sociedade brasileira após
a abolição da escravatura. As reformas agrária e
educacional que os abolicionistas pregavam não
aconteceram e o acesso dos negros à escola e à terra se
tornou difícil. No mercado de trabalho, havia a
concorrência com os imigrantes europeus. (Fonte:
Almanaque Abril, 2001)
• No decorrer do século XX, surgiram inúmeros movimentos
e entidades para defender os direitos da população negra
e lutar por cidadania plena. Um dos grandes símbolos
dessas manifestações é Zumbi, o maior líder do Quilombo
dos Palmares. O dia de sua morte, 20 de novembro, foi
transformado em Dia Nacional da Consciência Negra.
• Observação - "Com os negros, o processo de
desagregação do universo de representações foi muito
mais violento. Embora o ambiente geográfico brasileiro
fosse mais semelhante ao africano que o europeu, a
escravidão destruiu completamente o mundo tribal, ao
mesmo tempo que dificultou o desenvolvimento de novas
formas de sociabilidade espontânea. Além do mais, reuniu
representantes das mais diversas culturas tribais (que,
inclusive, não falavam a mesma língua de origem). Apenas
em algumas cidades, onde, com o tempo, concentraram-se
grandes massas de escravos e libertos, foi possível
reunir grupos de origem semelhante, e, através do
contato permanente com a África (importações de
escravos), reconstituiu-se parte da cultura original,
com a organização dos cultos africanos." (Fonte: Dever
de casa) |
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Herança negra:
(Vocabulário, Indumentária, Alimentação, Religião)
A) Vocabulário:
• A mão-de-obra escrava africana tornou-se a base da
sociedade colonial. A inserção da população negra na
sociedade se deu pelo trabalho, base da organização
econômica e da convivência familiar, social e cultural.
Além de ser o motor da economia açucareira, os escravos
exerciam dentro da casa-grande as funções domésticas,
influenciando em muito a língua de seus senhores. Na
formação do idioma falado no Brasil, os negros
contribuíram não apenas com algumas palavras que
enriqueceram o vocabulário, mas também e principalmente
com a maneira de falar, com o jeito aberto e espontâneo
de pronunciar as palavras.
• A língua portuguesa falada no Brasil foi enriquecida
com a contribuição do negro. Na sua formação houve o
aproveitamento de várias palavras: bamba, batuque,
cachimbo, caçula, cacunda (corcunda), cafuné, calombo,
camundongo, carimbo, catimba (astúcia), dengo, dengue,
farofa, fubá, inhame, macaco, mamona, marimbondo,
miçanga, molambo, moleque, mundongo (miúdos de animais),
mucama, quindim, quitanda, quitute, senzala, sunga,
tanga, xingar.
• "Prudência é exatamente o que faltou à maior parte dos
estudos sobre os africanismos no Português do Brasil,
que invariavelmente tendiam para os extremos: ou
limitavam essa influência ao vocabulário específico dos
cultos religiosos e à culinária correspondente (entre
centenas de outros, exu, bará, egum, orixá, ilê;
mungunzá, efó, dendê, vatapá, axoxô, xinxim, acaçá), ou
caíam no exagero oposto, atribuindo à África vocábulos
de origem européia, ameríndia ou oriental (bugiganga,
cachaça, cutucar, fulo, bengala, tarrafa, minhoca,
pindaíba)." (Fonte: Sua língua, prof. Cláudio Moreno)
• Mandingas era o nome dos escravos de uma tribo da
Guiné-Bissau. Por serem tidos como feiticeiros, a
palavra mandinga virou sinônimo de feitiço, magia. O
costume dos negros bengueles ou banguelos de cortarem ou
limarem os dentes, por motivos estéticos ou religiosos,
originou a palavra banguela (pessoa que não tem um ou
mais dentes da frente). Kabula era o nome dos escravos
de uma tribo banto predominante no ES. Por serem muito
arredios, deram origem a palavra encabulado. Segundo a
micromonografia do pesquisador Hugo P. Carradore, de SP,
publicada pelo Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas
Sociais, o cafuné, ato de coçar suavemente a cabeça de
alguém, foi trazido pelos negros de Angola. No quimbundo
é kifune, de kufunata (torcer, vergar). Em banguela
entre os umbundos, é xicuanli; para os quiocos e lundas,
é coxoboleno. Candango, palavra do dialeto quimbundo,
era o nome dado pelos escravos africanos aos
portugueses, em Angola, e aos senhores de engenho no
Nordeste. Quando começou a construção de Brasília, as
pessoas que trabalhavam na construção civil também
ficaram conhecidas como candangos.
B) Indumentária:
• O algodão, planta nativa do Brasil, era usado no
fabrico de tecidos de baixa qualidade destinados à
confecção de roupas para os escravos. Nos engenhos havia
uma oficina de roupas, onde as costureiras negras
cortavam e costuram peças de algodão ou lã para os
trabalhadores do campo. Os escravos que trabalhavam no
campo recebiam dois conjuntos de roupas por ano (um na
época das festas juninas e outro no Natal) de algodão
grosso e resistente, e um manto ou capa de baeta (um
tecido de lã grosseiro). Os homens recebiam, também, um
chapéu de palha ou barrete (gorro) e, as mulheres, um
pano para enrolar na cabeça. Os homens usavam calça e
camisa, as mulheres saia e camisa, tudo feito de algodão
grosso e resistente, de fabricação nacional. As roupas
eram trocadas aos domingos e lavadas uma vez por semana.
Expostos ao sol e a chuva, em geral, eles trabalhavam
seminus ou vestidos com roupas esfarrapadas.
• Os escravos domésticos eram escolhidos segundo sua
aparência. Mucamas, pajens, amas-de-leite, amas-secas,
cozinheiras, lavadeiras, cocheiros, copeiros e garotos
de recado, recebiam roupas mais finas e eram sempre os
mais bem vestidos e bem tratados. Os escravos das casas
de pessoas ricas ou de posição usavam antigos librés
(uniforme dos criados de casas nobres).
• Turbante - As escravas, em geral, usavam uma longa
faixa de tecido enrolada em volta da cabeça, em forma de
torço, muito semelhante ao turbante mouro. As escravas
das casas de pessoas ricas ou de posição, quando não
usavam turbantes, exibiam penteados extravagantes.
• Abadá - Os malês, negros muçulmanos que desembarcaram
principalmente na Bahia, trajavam-se em público como os
demais escravos e, para se reconhecerem, usavam anéis de
metal branco feitos de ferro ou prata. Mas, nas orações
e outros rituais de cunho religioso, vestiam uma espécie
de camisolão branco chamado abadá. Na cabeça usavam um
barrete (pequeno gorro) branco. Atualmente, a roupa
branca (calça e camisa) ou só a calça do capoeirista,
também são chamados de abadá. E o camisolão foi adotado
por blocos do carnaval baiano.
• Baiana - Na Bahia, com suas roupas vistosas, turbantes
(torços), panos da costa, batas (blusa branca comprida e
solta), saias rodadas, pulseiras e colares na cor do seu
orixá, as negras de ganho criaram um tipo. O traje que
costumamos chamar de baiano, reflete a influência
africana no Brasil. O turbante e os balangandãs indicam
elementos da cultura árabe do norte da África. Em
Salvador, no dia 25 de novembro, Dia da Baiana, tem
missa na Igreja de N. Sra. do Rosário dos Pretos e
manifestações culturais no Memorial das Baianas.
• Balangandã - As pencas de balangandãs integraram as
roupas tradicionais das negras baianas do século XIX.
Balangandã é o ornamento ou amuleto, em forma de figa,
fruta, medalha, moeda, chave ou dente de animal,
pendente de argola, broche ou pulseira de prata, usado
pelas baianas em dias festivos. Figas e dentes são
usados como amuletos para combater o mau-olhado. A figa
é um amuleto em forma de mão fechada, com o polegar
entre o indicador e o dedo grande, usado como ornamento
pessoal, da casa ou estabelecimento comercial.
• Pano da costa - Na África, o pano da costa era apenas
um complemento da vestimenta das mulheres negras, e não
tinha conotações religiosas. A partir do século XIX, no
Brasil, é que começou a ter ligação com as celebrações
do candomblé. Na África, é denominado alaká ou pano de
alaká. No Brasil, ficou conhecido como pano da costa
porque vinha da Costa do Marfim (África) e também por
ser usado nas costas. Os primeiros panos da costa vieram
no corpo das escravas, que não tinham roupa e eram
vendidas enroladas no pano. Depois, os panos foram
tecidos aqui mesmo por escravos ou por seus
descendentes, em teares manuais e rústicos vindos para o
Brasil no século XVIII. Tecido em tear manual, o pano da
costa é formado por tiras de dois metros de comprimento
cada uma, com largura variando entre 10 a 15
centímetros. As tiras são depois costuradas uma a uma.
Branco não é a cor predominante no pano da costa que,
geralmente, é listrado ou bordado em alto-relevo e
colorido com padronagens variadas dependendo do orixá de
cada nação. Os filhos de santo usam o alaká enrolado no
tronco. As mães escravas traziam durante as horas de
trabalho seus bebês escanchados (com as pernas em volta
da cintura) às costas e presos por um pano. |
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C) Alimentação:
• Na culinária brasileira, a influência africana pode
ser percebida em dois aspectos: no modo de preparo e na
introdução de ingredientes. Os pratos vindos da África
foram recriados com os produtos locais. Aqui, o inhame
foi substituído pela mandioca. Misturando ingredientes
europeus e indígenas, os negros trouxeram a habilidade
de improvisar receitas e o gosto por novos temperos.
Através do permanente intercâmbio de mercadorias, entre
África e Brasil, feito por traficantes e comerciantes
portugueses, novos ingredientes aqui chegaram. Da
África, eles trouxeram para o Brasil: a banana, o coco,
o camarão seco, o dendezeiro (palmeira de dendê), a erva
doce, o gergelim, a galinha-d'angola, o inhame, o quiabo
e algumas pimentas (a malagueta e a da Costa ou Ataré).
E em troca a África recebeu: a mandioca, o caju, o milho
e o amendoim.
• Banana - A banana é originária da Ásia. Chegou na
África pelas mãos dos árabes, que lhe deram o nome Banan
(dedo). No Brasil já existia uma variedade chamada
pacova ou banana-da-terra, que era cozida e preparada
pelos índios como mingau, caldo ou bebida. As outras
bananas que podem ser consumidas cruas, vieram da
África. Mingaus, bolos, tortas, saladas, farinhas e
doces são feitos com a banana. E, as folhas da
bananeira, servem para envolver peixes, assados e muitos
pratos afro-brasileiros.
• Coco - Originário da Ásia, o coqueiro foi introduzido
no Brasil pelos portugueses em 1553, proveniente de Cabo
Verde, primeiro na Bahia, depois no litoral nordestino e
daí para todo o país. O coco é um ingrediente
fundamental na culinária baiana.
• Dendê - A palmeira de dendê, foi trazida da África nas
primeiras décadas do século XVI. O azeite de dendê,
extraído da polpa do fruto, tem sabor doce, cheiro forte
e densa consistência. Além de larga aplicação culinária,
esse óleo tem usos na indústria química. É, também,
matéria-prima para a industrialização de maioneses e
margarinas.
• Vinho de dendê - "Os africanos em geral eram sóbrios
no uso de bebidas alcoólicas. Não se davam ao vício da
embriaguez mas do dendezeiro extraíam generoso vinho.
Para esse fim, na parte superior do tronco dessa
palmeira faziam uma incisão e colocavam um pedaço de
bambu para servir de escoadouro da seiva. Ao líquido que
caía em uma cabaça aí amarrada davam o nome de vinho de
dendê. Posteriormente na Bahia foi o vinho posto a
fermentar e filtrado antes de engarrafado e isso lhe
imprimia certa potência alcoólica e característica sem
embargo do paladar agradável e saboroso." (Manuel
Querino, A arte culinária na Bahia - in Antologia do
negro brasileiro, Ediouro)
• Feijoada - No Brasil colonial a comida era escassa e,
boa parte dos escravos, recebia somente uma cuia de
feijão cozido e farinha de mandioca por dia. Até mesmo
nas cidades, uma cuia com feijão e farinha era a comida
que os escravos de ganho recebiam pela manhã, antes de
sair para trabalhar. À noite ao retornar, recebiam outra
cuia. Para engrossar o caldo ralo, os escravos usavam as
partes do porco (língua, rabo, pés e orelhas)
desprezadas por seus senhores. Por isso, costuma-se
dizer que a feijoada é um prato africano do século XIX,
feito com verduras, carnes de porco, de boi, lingüiças,
paio, carne seca e temperos. No entanto, o pesquisador
de gastronomia brasileira Caloca Fernandes, autor de
vários livros sobre o assunto, afirma que a feijoada
chegou ao Brasil com os colonizadores portugueses. Em
Trás-os-Montes, Portugal, era feita com feijão branco e
carnes salgadas e defumadas do porco. No Brasil, os
portugueses passaram a prepará-la com os feijões que
aqui encontraram.
• Antes do sol nascer, os escravos da roça seguiam para
plantações conduzindo uma pequena carroça puxada por
bois, levando mantimentos e caldeirões para a preparação
da refeição coletiva no campo. A culinária da senzala
aproveitava as sobras de carnes da casa grande ou carne
curada, acrescentava farinha de mandioca, verduras ou
legumes, algumas vezes feijão temperado com pedaços de
toucinho e gordura de porco. E misturava temperos
africanos como o azeite de dendê e a pimenta malagueta.
• Angu - Na cozinha africana o caldo é um item
importante, pode ser proveniente do alimento cozido ou
simplesmente preparado com água e sal. No Brasil, esta
prática popularizou o pirão feito com água e farinha de
mandioca. Com o milho, os negros criaram o angu, um
mingau preparado com água e fubá, mais consistente que o
pirão. O angu era a base da alimentação dos escravos.
Algumas vezes, pedaços de angu ressecado, reforçavam a
alimentação matinal que, em geral, era café ralo e
rapadura. As negras de ganho do Rio de Janeiro, vendiam
o chamado angu-do-quitandeiro nas praças ou em suas
quitandas, onde também vendiam legumes e frutas. Esse
angu era feito com pedaços de carne, fígado, bofe,
língua, amídalas, coração, banha de porco, quiabos,
folhas de nabo, pimentão verde ou amarelo, salsa, cebola
e azeite de dendê.
• Comida de tabuleiro - Por volta de 1750, negras de
ganho foram para as ruas de Salvador (BA) e do Rio de
Janeiro para vender comida feita em casa. Alforriadas ou
escravas de ganho, percorriam as ruas com tabuleiros
equilibrados sobre a cabeça vendendo de porta em porta,
beijus, cuscuz, bolinhos, vinho de dendê e outras
iguarias. As negras vendedoras de comida foram as
primeiras baianas que Salvador conheceu. No tabuleiro,
estavam as iguarias dos orixás, o acarajé, o vatapá e o
abará, que as filhas de santo comercializavam como
obrigação do Candomblé. Acarajé é um bolinho de origem
africana (do Benin), feito com feijão fradinho, cebola e
sal, frito no azeite de dendê. Pode ser aberto e
recheado com vatapá e molho de camarão seco. Na sua
origem, o acarajé só podia ser vendido pelas filhas de
santo de Iansã, em cumprimento à obrigação do seu orixá,
que determinava inclusive o tempo em que essa obrigação
deveria ser mantida. O preparo dos bolinhos era feito
dentro do próprio terreiro de Candomblé, de onde a
baiana saía vestindo bata e saia rendada brancas, pano
da costa, torço, pulseiras, balangandãs e um colar de
contas vermelhas para simbolizar que era filha de Iansã.
• Os povos africanos estabelecem uma relação íntima
entre a culinária e a religião. Para continuar cultuando
seus orixás, as negras cozinheiras introduziram na
culinária da casa grande as receitas das oferendas
usadas em rituais religiosos. Algumas comidas de santo
no Candomblé são: abará (bolinho feito com massa de
feijão fradinho macerado em água e depois ralado sem
casca, sal, pimenta, cebola e azeite de dendê. Misturado
com camarão seco e, cozido em banho-maria, envolvido em
folhas de bananeira); aberém (bolinho feito de milho ou
arroz moído na pedra, macerado em água, salgado e cozido
em folha de bananeira); acaçá (bolinho feito de milho
branco macerado em água e depois moído, cozido sem sal e
envolvido, ainda morno, em folhas verdes de bananeira.
Acompanha o vatapá ou caruru. Quando preparado com leite
de coco e açúcar, é chamado acaçá de leite); ado (milho
torrado e moído, misturado com azeite de dendê e mel);
aluá (bebida refrigerante feita de milho, de arroz ou
casca de abacaxi fermentados com açúcar ou rapadura); amalá (inhame com azeite de dendê, cebola e camarão
seco, coberto com molho de quiabos); anduzada (feijão
andu cozido, temperado com carne de porco, cebola, alho
e coentro); angu (massa feita de fubá de milho, sal e
água); axoxô ou abadô (milho vermelho cozido, enfeitado
com fatias de coco); bobó (massa feita com feijão
mulatinho cozido e amassado, inhame, camarão, cebola
ralada, sal, gengibre, azeite de dendê e farinha de
mandioca); canjica (mingau de milho branco cozido em
leite com açúcar); caruru (frango, quiabo, sal e azeite
de dendê); ebó (massa de farinha de milho branco com
feijão fradinho torrado, quando ferver juntar sal ou
azeite de dendê); efó (folhas de taioba cortadas em
pedaços, aferventadas e escorridas, camarões secos
moídos, cebola ralada, coentro, pimenta, sal e um pedaço
de peixe seco ou bacalhau. Cozinha-se com pouca água,
até virar uma pasta bem cozida e seca. Põe-se um pouco
de azeite de dendê e mexe-se bem. Serve-se em tigela
untada com azeite de dendê quente. Come-se com arroz,
acaçá ou aberém.); feijão de azeite ou humulucu (feijão
fradinho cozido com cebola e sal, junta-se camarão seco
moído e azeite de dendê); ipetê (inhame cortado bem
miúdo e fervido até virar uma papa, e temperado com
azeite de dendê, cebola, pimenta e camarão); manuê (bolo
feito com fubá de milho e mel, cortado em pedaços
retangulares, embrulhado em folhas de bananeira e assado
em forno quente); moqueca (ensopado feito com peixes,
crustáceos ou carne, e temperado com ervas, limão,
cebola, leite de coco e azeite de dendê); mungunzá
(mingau de milho branco cozido em leite, leite de coco,
sal, açúcar, cravo e canela); oguedê (banana da terra em
fatias frita no azeite de dendê); omolocum (massa de
feijão fradinho cozido); padê (farofa feita com farinha
de milho e azeite de dendê); pamonha (massa de milho
verde ralado, leite de coco e açúcar, cozida na própria
folha); pirão ou angu-de-farinha (massa feita com água,
sal e farinha de mandioca ou caldo de algum alimento. É
servido como complemento de cozidos, carnes e peixes);
quibebe (purê de abóbora cozida com leite de coco, ou de
abóbora cozida com carne seca refogada); rabada (carne
do rabo do boi cortado em pedaços, temperada e cozida,
servida com pirão do próprio caldo ou angu); vatapá
(peixe ou crustáceos numa papa de farinha de mandioca,
com molho de dendê, azeite doce, pimenta, amendoim,
castanha, leite de coco, sal e cebola. Pode ser
engrossado com farinha de mandioca, miolo de pão ou
fubá); xinxim (galinha em pedaços, bem temperada, cozida
num molho de amendoim, castanha de caju, camarão seco e
gengibre. Existem xinxins de carne seca, intestinos de
boi e sobras de carnes); zorô ou zoró (camarão, azeite,
salsa, pimenta, cebola, cebolinha, tomate, cozidos com
maxixe, jilós ou quiabos. Come-se com angu).
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D) Religião:
• Batismo - A Igreja Católica Romana deu ordens para que
todos os escravos fossem batizados e participassem da
missa e dos sacramentos. Eles eram batizados, antes do
embarque na África, ou dentro dos navios ou pouco depois
de chegar ao Brasil. Quem não fosse batizado era
considerado "não gente", por ser pagão. Como prova de
terem sido batizados no ritual católico, eles recebiam
na pele o sinal da cruz feito com ferro quente. Os
escravos nascidos no Brasil eram logo batizados e ainda
assim considerados gente sem alma.
• Jesuítas - Os padres da Companhia de Jesus (jesuítas),
limitavam-se ao repúdio aos maus tratos e torturas, não
havendo, porém, questionamento da escravidão enquanto
instituição. O negro foi excluído da catequese e do
processo de educação devido a crença de que não tinha
alma. Os jesuítas ensinavam aos escravos apenas a
obedecer ao seu senhor e aos padres.
• Irmandades - Os escravos africanos eram proibidos de
praticar suas religiões nativas. Não podendo adorar os
seus orixás (deuses) publicamente e freqüentar as mesmas
igrejas dos senhores, os escravos filiavam-se às
irmandades católicas negras. Sob domínio e influência
dos colonizadores, começaram a cultuar N. Sra. do
Rosário, também chamada de N. Sra. dos Homens Pretos,
pois já a conheciam da África, onde a devoção foi levada
por missionários dominicanos que impuseram seu culto aos
negros. Mais tarde, essa devoção foi associada a São
Benedito. As irmandades religiosas dedicadas aos dois
santos são ligados aos grupos de dançadores de Congada e
Moçambique. Por isso, os estandartes e bandeiras desses
grupos fazem referência a eles. A igreja de N. Sra. do
Rosário dos Pretos, em Salvador (BA), concluída em 1781
no Largo do Pelourinho, é um marco para a arquitetura
colonial. Em estilo rococó, tem cúpulas em estilo mouro
sobre os campanários, e foi construída por escravos. N.
Sra. do Rosário é padroeira do Pelourinho e tem uma
festa no segundo domingo de outubro.
• São Benedito - Considerado o santo padroeiro dos
negros, São Benedito nasceu na Itália, por volta do ano
de 1526, e faleceu em Palermo (Itália), em 4 de abril de
1589. Seus pais eram de origem escrava e descendiam de
negros etíopes ou de mouros do norte da África, daí o
fato de ser chamado de São Benedito, o Preto ou o Mouro.
No século XVIII surgiram por todo o país as Irmandades
de São Benedito, formadas por devotos do santo negro,
cozinheiro e descendente de escravos. Pelo calendário
litúrgico, seu dia é 5 de outubro mas, suas festas, se
estendem por todo o ano. No Vale do Paraíba (entre o RJ
e SP) estão concentradas no período compreendido entre a
Páscoa e o dia 13 de maio, data da abolição da
escravatura, estabelecendo um verdadeiro Ciclo de São
Benedito. Em Paraty (RJ), São Benedito é comemorado a 29
de dezembro pelo povo e pela igreja, junto com N. Sra.
do Rosário, na festa a que chamam Divino dos Pretos.
• Candomblé e Umbanda - As crenças religiosas dos
escravos africanos deram origem ao Candomblé e a Umbanda
(mistura do Candomblé com Espiritismo). Existem 4 tipos
de Candomblé no Brasil, cada um deles saído de uma nação
(grupos étnicos dos escravos africanos): Queto (BA),
Xangô (PE e AL), Batuque (RS) e Angola (BA e SP). As
diferenças aparecem principalmente na maneira de tocar
os atabaques, na língua do culto e no nome dos orixás
(deuses). Os povos que mais influenciaram os 4 tipos de
Candomblé praticados no Brasil são os da língua iorubá.
A mistura com o Catolicismo foi uma questão de
sobrevivência. Para os colonizadores portugueses, as
danças e os rituais africanos eram pura feitiçaria e
deviam ser reprimidos. A saída, para os escravos, era
rezar para um santo e acender a vela para um orixá. Foi
assim que os santos católicos pegaram carona com deuses
africanos e passaram a ser associados a eles. A partir
da década de 20, o Espiritismo também entrou nos
terreiros, criando a Umbanda, com características bem
diferentes. Assim, o Candomblé já se incorporou à alma
brasileira. Tanto é que o país inteiro conhece a
saudação mágica que significa, em iorubá, energia vital
e sagrada: Axé! (Texto de Pierre Verger, in Super
Interessante, janeiro 1995)
• Candomblé - A preparação é fechada ao público. Somente
os membros da comunidade de santo, ou seja, do terreiro,
podem participar dela. Essa parte do ritual começa na
madrugada anterior e dura o dia inteiro. O toque é o
mesmo que festa e se refere à batida dos atabaques, que
convoca os orixás. A estrutura da cerimônia, chamada
"ordem de xirê" (brincadeira, na língua iorubá), divide
a festa em três partes. A primeira acontece à tarde, com
o sacrifício, a oferenda e o padê de Exu. A segunda é a
festa em si, à noite, na presença do público, quando os
filhos-de-santo incorporam os orixás. E a terceira fase,
o encerramento, com a roda de Oxalá, o deus criador do
homem. Os três atabaques (rum, rumpi e lé), que fazem
soar o toque durante o ritual também são responsáveis
pela convocação dos deuses. O rum funciona como solista,
marcando os passos da dança. Os outros dois, o rumpi e o
lé, reforçam a marcação, reproduzindo as modulações da
língua africana iorubá. Além dos atabaques, usam-se
também o agogô (dois sinos achatados, de ferro, onde se
bate com pedaço de metal), e o xequerê (cabaça envolta
em uma rede de contas). São, ao todo, mais de 15 ritmos
diferentes. Cada casa-de-santo tem até 500 cânticos.
Segundo a fé dos praticantes, os versos e as frases
rítmicas, repetidos incansavelmente, têm o poder de
captar o mundo sobrenatural. Essa música sagrada só sai
dos terreiros na época do carnaval, levada por grupos e
blocos de rua, principalmente em Salvador, como Olodum
ou Filhos de Gandhi. (Fonte: Super Interessante, janeiro
1995)
• Afoxé - O afoxé é uma dança-cortejo ligada ao
Candomblé, conhecida como candomblé de rua, típica do
Carnaval baiano. Após os ritos religiosos nos terreiros,
onde são evocados os orixás, o grupo sai para a rua
entoando canções com palavras em línguas africanas como
o iorubá. Para marcar o ritmo, são usados instrumentos
como agogôs, atabaques e xequerês. Entre os afoxés, o
mais conhecido é o Filhos de Gandhi, cujos integrantes
se vestem de branco e azul, com turbantes na cabeça. O
primeiro afoxé baiano, foi organizado em 1895 pelos
negros nagôs e desfilou com roupas e objetos de adorno
importados da África. (Fonte: Almanaque Abril, 1995)
• Xangô - Há no Norte do Brasil diversos cultos que
atendem pelo nome de Xangô. No Nordeste, mais
especificamente em Pernambuco e Alagoas, a prática do
Candomblé recebeu o nome genérico de Xangô, talvez
porque naquelas regiões existissem muitos filhos de
Xangô entre os negros que vieram da África. (Fonte:
livro Orixás - Editora Três)
•Tambor de mina - É o termo pelo qual é conhecida a
religião que os descendentes de negros africanos de
origem jeje e nagô trouxeram para o Maranhão. É uma
manifestação da religiosidade popular maranhense que tem
lugar em casas de culto conhecidas como terreiros. É uma
religião de possessão, onde os iniciados recebem
entidades espirituais cultuadas pelo seu pai de santo em
rituais conhecidos como tambor. Nos rituais são
utilizados tambores, cabaças, triângulos e agogôs.
Mediante o toque dos instrumentos, os iniciados, em
grande parte mulheres, vestidas com roupas específicas
para o ritual, dançam e incorporam as entidades
espirituais. Em São Luís, duas casas de culto africano
deram origem a esta forma de manifestação da
religiosidade dos negros: a Casa das Minas e a Casa de
Nagô. A Casa das Minas foi fundada por negras trazidas
do reino do Daomé (hoje Benim), habitado por negros
Mina. Nesse terreiro são recebidas entidades espirituais
denominadas voduns. A Casa de Nagô, também fundada por
descendentes de africanos, deu origem aos demais
terreiros de São Luís, onde são recebidas entidades
caboclas de origem européia ou nativa. (Fonte: City
Brasil - Maranhão)
• Orixás (deuses) - Cada orixá tem o seu símbolo, o seu
dia da semana, suas vestimentas e cores próprias. Os 12
orixás mais cultuados no Brasil são: Exu, Oxóssi,
Obaluaê, Oxum, Iansã, Ogum, Ossaim, Oxumarê, Xangô, Nanã,
Iemanjá e Oxalá. Exu é o orixá mensageiro entre os
homens e os deuses, guardião da porta da rua e das
encruzilhadas. Só através dele é possível invocar os
orixás. Colar e roupa: vermelho e preto; Oxóssi é o deus
da caça. É o grande patrono do candomblé brasileiro.
Colar: azul claro. Roupa: azul ou verde claro; Obaluaê é
o deus da peste, das doenças da pele. É o médico dos
pobres. Colar: preto e vermelho, ou vermelho, branco e
preto. Roupa: vermelha e preta, coberta por palha; Oxum
é a deusa das águas doces (rios, fontes e lagos). É
também deusa do ouro, da fecundidade, do jogo de búzios
e do amor. Colar e roupa: amarelo ouro; Iansã é a deusa
dos ventos e das tempestades. É a senhora dos raios e
dona da alma dos mortos. Colar: vermelho ou marrom
escuro. Roupa: vermelha; Ogum é o deus da guerra, do
fogo e da tecnologia. No Brasil é conhecido como deus
guerreiro. Sabe trabalhar com metal e, sem sua proteção,
o trabalho não pode ser proveitoso. Colar: azul-marinho.
Roupa: azul, verde escuro, vermelho ou amarelo; Ossaim é
o deus das folhas e ervas medicinais. Conhece seus usos
e as palavras mágicas (ofós) que despertam seus poderes.
Colar: Branco rajado de verde. Roupa: branca e verde
claro; Oxumarê é o deus da chuva e do arco-íris. É, ao
mesmo tempo, de natureza masculina e feminina.
Transposta a água entre o céu e a terra. Colar: amarelo
e verde. Roupa: azul claro e verde claro; Xangô é o deus
do fogo e do trovão. Diz a tradição que foi rei de Oyó,
cidade da Nigéria. É viril, violento e justiceiro.
Castiga os mentirosos e protege advogados e juízes.
Colar e roupa: branco e vermelho; Nanã é a deusa da lama
e do fundo dos rios, associada à fertilidade, à doença e
à morte. É a orixá mais velha de todos e, por isso,
muito respeitada. Colar: branco, azul e vermelho. Roupa:
branca e azul; Iemanjá é considerada deusa dos mares e
oceanos. É a mãe de todos os orixás e representada com
seios volumosos, simbolizando a maternidade e a
fecundidade. Colar: transparente, verde ou azul claro.
Roupa: branca e azul; Oxalá é o deus da criação. É o
orixá que criou os homens. Obstinado e independente, é
representado de duas maneiras: Oxaguiã, jovem, e Oxalufã,
velho. Colar e roupa: branco. (Fonte: Super
Interessante, janeiro 1995)
• Sincretismo - São comuns, nas festas populares
baseadas no calendário religioso, manifestações de
sincretismo afro-cristão, que fundem os orixás do
candomblé com os santos católicos. Na religião católica
Exu é representado por Sto Antônio (festa dia 13 de
junho) e São Benedito (dia 5 de outubro); Omolu/ Obaluaê
por São Lázaro (dia 17 de dezembro) e São Roque (dia 16
de agosto); Nanã por Sta Ana (dia 26 de julho); Xangô
por São Jerônimo (dia 30 de setembro), São José (dia 19
de março), São João (dia 24 de junho) e São Pedro (dia
29 de junho); Iansã/Oiá por Sta Bárbara (dia 4 de
dezembro); Obá por Sta Joana d'Arc (dia 30 de maio);
Ogum por São Jorge (dia 23 de abril) ou São Sebastião
(dia 20 de janeiro); Oxóssi por São Sebastião (dia 20 de
janeiro) ou São Jorge (dia 23 de abril); Oxumaré por São
Bartolomeu (dia 24 de agosto); Logunedê por Sto Expedito
(dia 19 de abril) ou São Miguel (dia 29 de setembro);
Oxalá jovem (Oxaguiã) pelo Menino Jesus (dia 24 de
dezembro) e Oxalá velho (Oxalufã) pelo Senhor do Bonfim
(2o domingo depois do Dia de Reis); Iemanjá por N. Sra.
das Candeias (dia 2 de fevereiro); Oxum por N. Sra. da
Conceição (dia 8 de dezembro); Euá por N. Sra. das Neves
(dia 5 de agosto); Ibeji (Vungi) pelos santos Cosme e
Damião (dia 27 de setembro). (Fonte: Orixás - Pallas
Editora)
• Iemanjá - A festa de Iemanjá é realizada na madrugada
do primeiro dia do ano, no Sul e no Sudeste, e em
Salvador no dia 2 de fevereiro, dia de N. Sra. da
Candelária (da Luz ou das Candeias). Entregam-se flores
e outras oferendas à Iemanjá (ou Janaína), principal
orixá feminino, mãe de todos os orixás, considerada
deusa dos mares e oceanos, rainha das águas e sereia do
mar. Segundo o livro Orixás, da Editora Três, "na
África, a origem de Iemanjá é um rio que vai desembocar
no mar. De tanto chorar com o rompimento com seu filho
Oxóssi, que a abandonou e foi viver escondido na mata
junto com o irmão renegado Ossaim, Iemanjá se derreteu,
transformando-se num rio que foi desembocar no mar."
Iemanjá na religião católica corresponde a Nossa
Senhora.
• Lenda de Iemanjá - Quando Obatalá e Odudua se casaram,
tiveram dois filhos: Iemanjá (o mar) e Aganju (a terra).
Os irmãos se casaram e tiveram um filho, Orungã (o ar).
Quando cresceu, Orungã apaixonou-se pela mãe. Um dia,
aproveitando a ausência do pai, tentou violentá-la.
Iemanjá conseguiu escapar e fugiu pelos campos. Quando
Orungã já a alcançava, ela caiu ao chão e morreu. Então
seu corpo começou a crescer até que seus seios se
romperam e deles saíram dois grandes rios, que formaram
os mares; e do ventre saíram os orixás que governam as
16 direcões do mundo: Exu, Ogum, Xangô, Iansã, Ossain,
Oxóssi, Obá, Oxum, Dadá, Olocum, Oloxá, Okô, Okê, Ajê
Xalugá, Orum e Oxu. (Fonte: Orixás - Pallas Editora)
• São Sebastião - A Igreja Católica festeja São
Sebastião com missas e procissões no dia 20 de janeiro.
Nessa mesma data ele é festejado pelas comunidades dos
cultos religiosos afro-brasileiros em seus terreiros e
barracões. No Candomblé São Sebastião é sincretizado com
Ogum, deus da guerra, e na Umbanda é sincretizado com
Oxóssi, deus da caça. Em outros rituais ele é
sincretizado com Omulú e Obaluayê, por causas das chagas
causadas pelos ferimentos causados pelas flechas. São
Sebastião é muito venerado em todo o Brasil, onde muitas
cidades o têm como padroeiro, entre elas, a cidade do
Rio de Janeiro. Em sua honra, dramatiza-se em Conceição
da Barra (ES), a 19 e 20 de janeiro, o Alardo, dança
dramática do grupo dos folguedos de cristãos e mouros
(Chegança). Ele é o protetor dos atletas, dos soldados e
guardião do amor, devido à demonstração de amor e fé
dedicada aos princípios fundamentais do cristianismo.
• São Cosme e São Damião - Eram gêmeos que foram
martirizados no dia 27 de setembro de 287, na Egéia,
Cíclica, Ásia Menor, durante a perseguição do imperador
Diocleciano. Foram canonizados pela Igreja Católica e
hoje são patronos dos cirurgiões. No Brasil, são
defensores da fome, das doenças do sexo e dos partos
duplos. No Candomblé os santos Cosme e Damião são
sincretizados com Ibeji (Vungi). No dia que lhes é
consagrado, 27 de setembro, recebem homenagens
promovidas por pagadores de promessa, que deve
estender-se por 7 anos. Alguns devotos fazem a festa de
mesa, quando 7 crianças (ou outro múltipo de 7),
sentam-se em uma mesa com bolo, doces e refrigerantes.
No RJ, as ruas enchem-se de crianças em correria à
procura de brinquedos e saquinhos de doces, decorados
com as figuras dos santos, ofertados por devotos. Nos
saquinhos, encontram-se diferentes tipos de doces:
cocada, pé-de-moleque, maria-mole, doce-de-leite, balas.
Os devotos também costumam destinar alguns doces e
refrigerantes para serem colocados em frente às suas
imagens num altar, onde também são acesas velas. Na
Bahia, Dois-dois é o nome que o povo dá aos santos. No
dia deles são oferecidas refeições à 7 crianças,
seguindo-se o almoço dos adultos e danças, diante do
altar com as imagens dos santos. É comum as estampas de
Cosme e Damião incluírem uma criança representando Doum
que, segundo a crença popular, era filho de uma
empregada da família dos gêmeos e morreu no dia seguinte
ao martírio dos irmãos.
• São Jorge - Conhecido como o santo guerreiro, São
Jorge é um santo muito popular, cultuado não somente nas
igrejas católicas como também em terreiros de todas as
linhas. É festejado no dia 23 de abril, com procissões
católicas e atividades nos terreiros. No Candomblé São
Jorge é sincretizado com Oxóssi, deus da caça, e na
Umbanda é sincretizado com Ogum, deus da guerra.
Justiceiro, protetor dos oprimidos e injustiçados, é o
patrono de corporações militares, escolas de samba,
clubes de futebol. É bom ter um pé de espada-de-são
jorge plantado no jardim das casas que ficam, assim,
protegidas de todo o mal. A espada-de-são jorge é uma
planta muito usada nos banhos e libações (derramamento
de líquido em um altar).
• Banho-de-cheiro - O banho-de-cheiro é muito usado nas
religiões afro-brasileiras. É um banho aromático
preparado com ervas, cascas de plantas, flores,
essências e resinas, que tem o poder de conservar a
felicidade, afastar o azar, readquirir os favores da
sorte e acabar com o mau-olhado. O banho-de-cheiro
nordestino é feito com sete plantas: arruda, alecrim,
manjericão, malva-rosa, malva-branca, manjerona e
vassourinha. Nos banhos de cheiro não se usa sabonete
nem toalha. Os melhores dias para tomar banho-de-cheiro
são os seguintes: Ano-Novo, Sábado de Aleluia, dia de
São João, Natal e antes de casar. (Fonte: Dicionário de
Folclore para Estudantes)
• Missa afro - Missa onde os rituais católicos
misturam-se às tradições afro-brasileiras. É um rito
católico inculturado, a partir dos valores africanos,
celebrado ao som de atabaques e cantos afros. Não há
sincretismo, isto é, elementos dos cultos africanos não
são misturados à celebração. Na Paróquia N. Sra.
Achiropita em São Paulo, além da missa afro, são
celebrados batismos e casamentos afro. |
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