Imagens do livro "Viagem pitoresca através do Brasil", 1834, do pintor Johann Moritz Rugendas
Design atual Lenise Resende

Cultura Popular Brasileira e Folclore
Edição e Pesquisa de Lenise Resende

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Raça negra - africanos


Na constituição da população brasileira, a raça negra é representada pelos africanos trazidos para o Brasil, a partir de 1530, como escravos para o serviço nas plantações e nos engenhos de açúcar. Eles eram vendidos em escala crescente por mercadores portugueses. Esse comércio tornou-se um negócio lucrativo para os traficantes e vantajoso para os proprietários. O alto preço do escravo africano era amortizado pelo tempo de cinco a dez anos de trabalho forçado. Por isso, do século XVII ao XIX, os negros cativos formaram a grande massa trabalhadora da agricultura, da mineração e de outras atividades econômicas.

• Tráfico de escravos - O comércio de escravos trouxe para o Brasil negros de diversas regiões da África. Quanto às áreas de origem, dois grupos se destacaram: Os bantos e os nagôs (sudaneses).

Banto é família lingüística e inclui 274 línguas e dialetos aparentados. Os bantos, povos rurais, provinham de Angola, Moçambique e Congo, e subdividiam-se em: cambindas, benguelas, congos e angolas. Eram agricultores, mas também viviam da caça e da pesca, e conheciam a metalurgia. Formaram o reino do Congo que dominava grande parte do noroeste do continente africano. No Brasil foram para para MG, GO, RJ E SP.

Nagô é o nome dado ao iorubano ou a todo negro da Costa dos Escravos que falava ou entendia o iorubá - uma língua cantada, como o sotaque baiano. Os nagôs vieram das regiões da África Ocidental que correspondem atualmente a países como Sudão, Nigéria, Benin, Burkina, Costa do Marfim, Gana, Guiné e Togo. Vieram para o Brasil os minas, mandingas, hauçás (haussás), bornús e kanúris. Os chamados malês, muçulmanos de hábitos refinados, provinham das tribos do norte da Nigéria. Os mestres malês (alufás, em iorubá) encarregavam-se da transmissão da doutrina islâmica, bem como do ensino da língua e escrita árabes.

Na África não existiu nenhuma nação Jeje. A palavra Jeje vem do iorubá "adjeje" que significa forasteiro, e recebeu uma conotação pejorativa como “inimigo”, por parte dos povos conquistados pelos reis de Daomé. Esse reino, situado onde agora é o Benin, obteve lucro colaborando com o tráfico de escravos. Quando os daomeanos chegaram ao Brasil como escravos, aqueles que já estavam aqui reconheceram-nos como inimigos. O que é chamado de nação Jeje é o candomblé formado por povos da região de Daomé.

Os nagôs desembarcaram principalmente em Salvador (BA), depois, muitos foram levados para trabalhar na extração do ouro em Minas Gerais. A prestigiosa influência social e religiosa da etnia yorubá-nagô na Bahia, deve-se ao enorme contingente de escravos dessa região trazidos para Salvador, nas últimas décadas do tráfico negreiro. Nessa ocasião, os núcleos familiares não foram tão desmembrados como no início da escravatura e permitiram uma maior manutenção da cultura e dos costumes.

• Sociedade colonial - A base da economia colonial era o engenho de açúcar. O senhor de engenho era um fazendeiro proprietário da unidade de produção de açúcar. Utilizava a mão-de-obra africana escrava e tinha como objetivo principal a venda do açúcar para o mercado europeu.

O engenho era formado pela fazenda, que abrigava as terras para o cultivo; a casa-grande, moradia do senhor e sua família; a senzala, onde dormiam os escravos; a capela; a moenda e as casas dos agregados. Os agregados eram trabalhadores livres que recebiam um salário por seu trabalho: feitor, mestre-do-açúcar (responsável pela qualidade do produto), caixeiro (responsável pelas caixas de açúcar), barqueiros, canoeiros, carpinteiros, carreiros, ferreiros, pedreiros, pescadores, vaqueiros e lavradores. Os lavradores ou roceiros, além de responsáveis pelo cultivo da cana, cuidavam de pequenas roças de milho, mandioca ou feijão, que auxiliavam na subsistência. O conforto da casa grande contrastava com a miséria e péssimas condições de higiene da senzala.

A maior parte dos escravos trabalhava no cultivo da cana. Outra parte era utilizada na moenda da cana. As escravas também trabalhavam na roça desde pequenas, catando ervas e enfeixando a cana. Nos engenhos moíam a cana e coziam o melado. Na casa-grande realizavam as tarefas domésticas: cozinhavam, lavavam, costuravam e arrumavam. Na senzala, cuidavam dos maridos e filhos. Algumas escravas eram, também, parteiras ou conheciam os segredos das plantas para curar mazelas e doenças, tornando-se benzedeiras ou curandeiras. Os escravos recebiam os domingos e dias santos para repousar, lavar sua roupa ou trabalhar nas roças produzindo alimentos para seu consumo. Muitos deles obtinham recursos extras comercializando os excedentes.

Os negros já aculturados eram chamados de "ladinos". Trabalhavam na casa-grande, realizando tarefas domésticas, onde recebiam um tratamento melhor, e entendiam e falavam o português. Os escravos chamados "boçais", eram os recém-chegados da África e costumavam ser utilizados nos trabalhos da lavoura. Além de ensinar a língua, os costumes dos brancos e informar sobre o sincretismo nos cultos religiosos, os ladinos ensinavam aos boçais a técnica e a rotina do plantio da cana e do fabrico do açúcar.

A partir de meados do século XVIII, com o crescimento da população e da economia urbana, os escravos passaram a ser utilizados em outras funções nas cidades. Empregados ou alugados por seus senhores para produzir, vender ou prestar serviços a terceiros, eram os escravos de ganho. Para complementar o orçamento doméstico de seus senhores, escravas saíam da cozinha para as ruas com comida feita em casa para ser vendida. Eram as vendedoras ambulantes. Outras, transformavam-se em amas-de-leite, damas de companhia, lavadeiras. Os escravos transformavam-se em ajudantes de armazéns, quitandas e lojas, alfaiates, barbeiros, barqueiros, carpinteiros, carregadores, cavalariços, marceneiros, pedreiros, sapateiros, quitandeiros e vendedores ambulantes.

• Terapeutas populares - No período colonial, as pessoas ricas dos centros urbanos, utilizavam os serviços de saúde prestados pelas Santas Casas de Misericórdias, hospitais militares e enfermarias das ordens religiosas. Mesmo assim, esses institutos atuavam sempre de forma precária, com instalações físicas inadequadas e com uma grande carência de profissionais médicos. As pessoas pobres resolviam seus problemas de saúde com os boticários, cirurgiões-barbeiros, barbeiros, sangradores e curandeiros. Em 1808, com a transferência da Corte para o Brasil, foi recriada no Rio de Janeiro, a sede da Fisicatura mor, que elaborava os regimentos para os ofícios relacionados às "artes de curar". A Fisicatura mor existiu até 1828. Integrantes do grupo mais prestigiado, os médicos (físicos) prescreviam remédios, os cirurgiões intervinham no corpo doente, e os boticários manipulavam e vendiam os medicamentos. Integrantes do grupo que desempenhava atividades menos consideradas eram os sangradores, as parteiras e os curandeiros. Aplicar ventosas e sanguessugas, sarjar (cortar a pele com o sarjador), e tirar dentes, eram consideradas atividades mecânicas, por isso, próprias de escravos e alforriados. Os sangradores, barbeiros, cirurgiões-barbeiros, parteiras e curandeiros, eram em sua maior parte escravos e forros. O sangrador realizava sangrias (retirava o sangue) através de sanguessugas (bichas) e ventosas (copinhos vendidos em farmácias, esquentados com chama de álcool e aplicados sobre a pele, fazendo vácuo, nos locais doloridos). O sangrador e algebrista tratava de fraturas, luxações e torceduras. O barbeiro, além de cortar e pentear os cabelos e barbear, alugava sanguessugas para os médicos e clientes, fazia curativos e operações cirúrgicas pouco importantes. Por terem grande habilidade manual, os barbeiros faziam também extrações dentárias porque, por receio e desconhecimento, muitos cirurgiões não intervinham na boca. Somente os pobres recorriam aos cirurgiões negros que, além de aplicar ventosas, indicavam remédios e vendiam talismãs. A parteira ajudava as mulheres a dar à luz. O curandeiro cuidava de doenças leves e aplicava remédios feitos com plantas medicinais. Os sangradores deveriam apresentar uma licença da Fisicatura mor, se quisessem trabalhar em navios, onde sua presença era fundamental pois, muitas vezes, era o único recurso terapêutico para quem estivesse doente. Era vantajoso levar africanos como sangradores nos navios negreiros, devido a facilidade de comunicação com os novos escravos. Pessoas em posições sociais mais elevadas, só pediam licença de sangrador, porque era obrigatória a quem quisesse oficializar-se como cirurgião.

• Mineração - Na passagem do século XVII para o XVIII, foram descobertas ricas jazidas de ouro no centro-sul do Brasil. O chamado ciclo do ouro foi responsável por profundas mudanças na vida colonial. O comércio interno de escravos foi intensificado e 600 mil negros foram levados do Nordeste para trabalhar na extração do ouro em Minas Gerais. Os negros minas, fortes e resistentes, eram maioria no trabalho minerador em Vila Rica (atual Ouro Preto), MG. Os escravos trabalhavam por tarefa e, muitas vezes, podiam ficar com uma parte do ouro descoberto. Com isso, tinham a chance de comprar sua liberdade. Mas a grande maioria passou a viver em condições bem piores do que no período anterior, escavando em verdadeiros buracos onde até a respiração era dificultada. Trabalhavam também na água ou atolados no barro no interior das minas.

• Resistência à escravidão - A inserção da população negra na sociedade se deu pelo trabalho, base da organização econômica e da convivência familiar, social e cultural. A miscigenação avançou, com um número cada vez maior de mulatos. Nasceu uma religiosidade popular em torno das irmandades católicas e dos terreiros de Umbanda e Candomblé. Em 1800, cerca de dois terços da população do país – 3 milhões de habitantes – eram formados por negros e mulatos, cativos ou libertos. Os escravos, no entanto, mantinham-se em condição social inferior, e a escravidão, perpétua e hereditária, permanecia regulada pela lei da alforria – concessão da liberdade pelo proprietário mediante indenização. A servidão desqualificava o trabalho – sobretudo o manual –, considerado pelas elites como "coisa de negros". Os cativos resistiam a essa condição de inferioridade e de exploração fugindo das fazendas para os quilombos nos sertões e rebelando-se nas cidades. (Fonte: Almanaque Abril, 2001)

• Quilombos – A face mais visível da resistência à escravidão eram os quilombos - comunidades de escravos fugidos que tentaram sobreviver à margem da sociedade colonial. Além deles, outros conflitos expressaram a luta contra a escravidão e levaram ao movimento abolicionista. São poucas as cidades brasileiras mais antigas que não têm um bairro ou algum lugar de referência à existência de ajuntamentos de escravos negros e mulatos fugidos. É difícil calcular o número de quilombos formados durante o período da escravidão, porque muitos não deixaram registro e alguns remanescentes ainda estão sendo descobertos. Pequenos ou grandes, próximos ou afastados dos vilarejos e cidades, mais hostis ou mais amigáveis, aceitando ou não partilhar seu espaço com brancos e índios, os quilombos eram sempre vistos com temor e mantidos à distância pela sociedade dominante. Isso não impediu que mantivessem relações com essa mesma sociedade, de trocas comerciais e casamentos à participação nas celebrações religiosas e festas populares. (Fonte: Almanaque Abril, 2001)

• Abolição da escravatura - Na segunda metade do século XIX cresceu a campanha abolicionista no país. A escravidão foi extinta em 1888, mas sua herança permaneceu na sociedade brasileira, na forma de discriminação racial, social e econômica de negros, mulatos e pobres em geral. Os negros encontraram dificuldade para integrar-se à sociedade brasileira após a abolição da escravatura. As reformas agrária e educacional que os abolicionistas pregavam não aconteceram e o acesso dos negros à escola e à terra se tornou difícil. No mercado de trabalho, havia a concorrência com os imigrantes europeus. (Fonte: Almanaque Abril, 2001)

• No decorrer do século XX, surgiram inúmeros movimentos e entidades para defender os direitos da população negra e lutar por cidadania plena. Um dos grandes símbolos dessas manifestações é Zumbi, o maior líder do Quilombo dos Palmares. O dia de sua morte, 20 de novembro, foi transformado em Dia Nacional da Consciência Negra.

• Observação - "Com os negros, o processo de desagregação do universo de representações foi muito mais violento. Embora o ambiente geográfico brasileiro fosse mais semelhante ao africano que o europeu, a escravidão destruiu completamente o mundo tribal, ao mesmo tempo que dificultou o desenvolvimento de novas formas de sociabilidade espontânea. Além do mais, reuniu representantes das mais diversas culturas tribais (que, inclusive, não falavam a mesma língua de origem). Apenas em algumas cidades, onde, com o tempo, concentraram-se grandes massas de escravos e libertos, foi possível reunir grupos de origem semelhante, e, através do contato permanente com a África (importações de escravos), reconstituiu-se parte da cultura original, com a organização dos cultos africanos." (Fonte: Dever de casa)


Herança negra:

(Vocabulário, Indumentária, Alimentação, Religião)
 

A) Vocabulário:
• A mão-de-obra escrava africana tornou-se a base da sociedade colonial. A inserção da população negra na sociedade se deu pelo trabalho, base da organização econômica e da convivência familiar, social e cultural. Além de ser o motor da economia açucareira, os escravos exerciam dentro da casa-grande as funções domésticas, influenciando em muito a língua de seus senhores. Na formação do idioma falado no Brasil, os negros contribuíram não apenas com algumas palavras que enriqueceram o vocabulário, mas também e principalmente com a maneira de falar, com o jeito aberto e espontâneo de pronunciar as palavras.

• A língua portuguesa falada no Brasil foi enriquecida com a contribuição do negro. Na sua formação houve o aproveitamento de várias palavras: bamba, batuque, cachimbo, caçula, cacunda (corcunda), cafuné, calombo, camundongo, carimbo, catimba (astúcia), dengo, dengue, farofa, fubá, inhame, macaco, mamona, marimbondo, miçanga, molambo, moleque, mundongo (miúdos de animais), mucama, quindim, quitanda, quitute, senzala, sunga, tanga, xingar.

• "Prudência é exatamente o que faltou à maior parte dos estudos sobre os africanismos no Português do Brasil, que invariavelmente tendiam para os extremos: ou limitavam essa influência ao vocabulário específico dos cultos religiosos e à culinária correspondente (entre centenas de outros, exu, bará, egum, orixá, ilê; mungunzá, efó, dendê, vatapá, axoxô, xinxim, acaçá), ou caíam no exagero oposto, atribuindo à África vocábulos de origem européia, ameríndia ou oriental (bugiganga, cachaça, cutucar, fulo, bengala, tarrafa, minhoca, pindaíba)." (Fonte: Sua língua, prof. Cláudio Moreno)

• Mandingas era o nome dos escravos de uma tribo da Guiné-Bissau. Por serem tidos como feiticeiros, a palavra mandinga virou sinônimo de feitiço, magia. O costume dos negros bengueles ou banguelos de cortarem ou limarem os dentes, por motivos estéticos ou religiosos, originou a palavra banguela (pessoa que não tem um ou mais dentes da frente). Kabula era o nome dos escravos de uma tribo banto predominante no ES. Por serem muito arredios, deram origem a palavra encabulado. Segundo a micromonografia do pesquisador Hugo P. Carradore, de SP, publicada pelo Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, o cafuné, ato de coçar suavemente a cabeça de alguém, foi trazido pelos negros de Angola. No quimbundo é kifune, de kufunata (torcer, vergar). Em banguela entre os umbundos, é xicuanli; para os quiocos e lundas, é coxoboleno. Candango, palavra do dialeto quimbundo, era o nome dado pelos escravos africanos aos portugueses, em Angola, e aos senhores de engenho no Nordeste. Quando começou a construção de Brasília, as pessoas que trabalhavam na construção civil também ficaram conhecidas como candangos.

B) Indumentária:
• O algodão, planta nativa do Brasil, era usado no fabrico de tecidos de baixa qualidade destinados à confecção de roupas para os escravos. Nos engenhos havia uma oficina de roupas, onde as costureiras negras cortavam e costuram peças de algodão ou lã para os trabalhadores do campo. Os escravos que trabalhavam no campo recebiam dois conjuntos de roupas por ano (um na época das festas juninas e outro no Natal) de algodão grosso e resistente, e um manto ou capa de baeta (um tecido de lã grosseiro). Os homens recebiam, também, um chapéu de palha ou barrete (gorro) e, as mulheres, um pano para enrolar na cabeça. Os homens usavam calça e camisa, as mulheres saia e camisa, tudo feito de algodão grosso e resistente, de fabricação nacional. As roupas eram trocadas aos domingos e lavadas uma vez por semana. Expostos ao sol e a chuva, em geral, eles trabalhavam seminus ou vestidos com roupas esfarrapadas.

• Os escravos domésticos eram escolhidos segundo sua aparência. Mucamas, pajens, amas-de-leite, amas-secas, cozinheiras, lavadeiras, cocheiros, copeiros e garotos de recado, recebiam roupas mais finas e eram sempre os mais bem vestidos e bem tratados. Os escravos das casas de pessoas ricas ou de posição usavam antigos librés (uniforme dos criados de casas nobres).

• Turbante - As escravas, em geral, usavam uma longa faixa de tecido enrolada em volta da cabeça, em forma de torço, muito semelhante ao turbante mouro. As escravas das casas de pessoas ricas ou de posição, quando não usavam turbantes, exibiam penteados extravagantes.

• Abadá - Os malês, negros muçulmanos que desembarcaram principalmente na Bahia, trajavam-se em público como os demais escravos e, para se reconhecerem, usavam anéis de metal branco feitos de ferro ou prata. Mas, nas orações e outros rituais de cunho religioso, vestiam uma espécie de camisolão branco chamado abadá. Na cabeça usavam um barrete (pequeno gorro) branco. Atualmente, a roupa branca (calça e camisa) ou só a calça do capoeirista, também são chamados de abadá. E o camisolão foi adotado por blocos do carnaval baiano.

• Baiana - Na Bahia, com suas roupas vistosas, turbantes (torços), panos da costa, batas (blusa branca comprida e solta), saias rodadas, pulseiras e colares na cor do seu orixá, as negras de ganho criaram um tipo. O traje que costumamos chamar de baiano, reflete a influência africana no Brasil. O turbante e os balangandãs indicam elementos da cultura árabe do norte da África. Em Salvador, no dia 25 de novembro, Dia da Baiana, tem missa na Igreja de N. Sra. do Rosário dos Pretos e manifestações culturais no Memorial das Baianas.

• Balangandã - As pencas de balangandãs integraram as roupas tradicionais das negras baianas do século XIX. Balangandã é o ornamento ou amuleto, em forma de figa, fruta, medalha, moeda, chave ou dente de animal, pendente de argola, broche ou pulseira de prata, usado pelas baianas em dias festivos. Figas e dentes são usados como amuletos para combater o mau-olhado. A figa é um amuleto em forma de mão fechada, com o polegar entre o indicador e o dedo grande, usado como ornamento pessoal, da casa ou estabelecimento comercial.

• Pano da costa - Na África, o pano da costa era apenas um complemento da vestimenta das mulheres negras, e não tinha conotações religiosas. A partir do século XIX, no Brasil, é que começou a ter ligação com as celebrações do candomblé. Na África, é denominado alaká ou pano de alaká. No Brasil, ficou conhecido como pano da costa porque vinha da Costa do Marfim (África) e também por ser usado nas costas. Os primeiros panos da costa vieram no corpo das escravas, que não tinham roupa e eram vendidas enroladas no pano. Depois, os panos foram tecidos aqui mesmo por escravos ou por seus descendentes, em teares manuais e rústicos vindos para o Brasil no século XVIII. Tecido em tear manual, o pano da costa é formado por tiras de dois metros de comprimento cada uma, com largura variando entre 10 a 15 centímetros. As tiras são depois costuradas uma a uma. Branco não é a cor predominante no pano da costa que, geralmente, é listrado ou bordado em alto-relevo e colorido com padronagens variadas dependendo do orixá de cada nação. Os filhos de santo usam o alaká enrolado no tronco. As mães escravas traziam durante as horas de trabalho seus bebês escanchados (com as pernas em volta da cintura) às costas e presos por um pano.


C) Alimentação:
• Na culinária brasileira, a influência africana pode ser percebida em dois aspectos: no modo de preparo e na introdução de ingredientes. Os pratos vindos da África foram recriados com os produtos locais. Aqui, o inhame foi substituído pela mandioca. Misturando ingredientes europeus e indígenas, os negros trouxeram a habilidade de improvisar receitas e o gosto por novos temperos. Através do permanente intercâmbio de mercadorias, entre África e Brasil, feito por traficantes e comerciantes portugueses, novos ingredientes aqui chegaram. Da África, eles trouxeram para o Brasil: a banana, o coco, o camarão seco, o dendezeiro (palmeira de dendê), a erva doce, o gergelim, a galinha-d'angola, o inhame, o quiabo e algumas pimentas (a malagueta e a da Costa ou Ataré). E em troca a África recebeu: a mandioca, o caju, o milho e o amendoim.

• Banana - A banana é originária da Ásia. Chegou na África pelas mãos dos árabes, que lhe deram o nome Banan (dedo). No Brasil já existia uma variedade chamada pacova ou banana-da-terra, que era cozida e preparada pelos índios como mingau, caldo ou bebida. As outras bananas que podem ser consumidas cruas, vieram da África. Mingaus, bolos, tortas, saladas, farinhas e doces são feitos com a banana. E, as folhas da bananeira, servem para envolver peixes, assados e muitos pratos afro-brasileiros.

• Coco - Originário da Ásia, o coqueiro foi introduzido no Brasil pelos portugueses em 1553, proveniente de Cabo Verde, primeiro na Bahia, depois no litoral nordestino e daí para todo o país. O coco é um ingrediente fundamental na culinária baiana.

• Dendê - A palmeira de dendê, foi trazida da África nas primeiras décadas do século XVI. O azeite de dendê, extraído da polpa do fruto, tem sabor doce, cheiro forte e densa consistência. Além de larga aplicação culinária, esse óleo tem usos na indústria química. É, também, matéria-prima para a industrialização de maioneses e margarinas.

• Vinho de dendê - "Os africanos em geral eram sóbrios no uso de bebidas alcoólicas. Não se davam ao vício da embriaguez mas do dendezeiro extraíam generoso vinho. Para esse fim, na parte superior do tronco dessa palmeira faziam uma incisão e colocavam um pedaço de bambu para servir de escoadouro da seiva. Ao líquido que caía em uma cabaça aí amarrada davam o nome de vinho de dendê. Posteriormente na Bahia foi o vinho posto a fermentar e filtrado antes de engarrafado e isso lhe imprimia certa potência alcoólica e característica sem embargo do paladar agradável e saboroso." (Manuel Querino, A arte culinária na Bahia - in Antologia do negro brasileiro, Ediouro)

• Feijoada - No Brasil colonial a comida era escassa e, boa parte dos escravos, recebia somente uma cuia de feijão cozido e farinha de mandioca por dia. Até mesmo nas cidades, uma cuia com feijão e farinha era a comida que os escravos de ganho recebiam pela manhã, antes de sair para trabalhar. À noite ao retornar, recebiam outra cuia. Para engrossar o caldo ralo, os escravos usavam as partes do porco (língua, rabo, pés e orelhas) desprezadas por seus senhores. Por isso, costuma-se dizer que a feijoada é um prato africano do século XIX, feito com verduras, carnes de porco, de boi, lingüiças, paio, carne seca e temperos. No entanto, o pesquisador de gastronomia brasileira Caloca Fernandes, autor de vários livros sobre o assunto, afirma que a feijoada chegou ao Brasil com os colonizadores portugueses. Em Trás-os-Montes, Portugal, era feita com feijão branco e carnes salgadas e defumadas do porco. No Brasil, os portugueses passaram a prepará-la com os feijões que aqui encontraram.

• Antes do sol nascer, os escravos da roça seguiam para plantações conduzindo uma pequena carroça puxada por bois, levando mantimentos e caldeirões para a preparação da refeição coletiva no campo. A culinária da senzala aproveitava as sobras de carnes da casa grande ou carne curada, acrescentava farinha de mandioca, verduras ou legumes, algumas vezes feijão temperado com pedaços de toucinho e gordura de porco. E misturava temperos africanos como o azeite de dendê e a pimenta malagueta.

• Angu - Na cozinha africana o caldo é um item importante, pode ser proveniente do alimento cozido ou simplesmente preparado com água e sal. No Brasil, esta prática popularizou o pirão feito com água e farinha de mandioca. Com o milho, os negros criaram o angu, um mingau preparado com água e fubá, mais consistente que o pirão. O angu era a base da alimentação dos escravos. Algumas vezes, pedaços de angu ressecado, reforçavam a alimentação matinal que, em geral, era café ralo e rapadura. As negras de ganho do Rio de Janeiro, vendiam o chamado angu-do-quitandeiro nas praças ou em suas quitandas, onde também vendiam legumes e frutas. Esse angu era feito com pedaços de carne, fígado, bofe, língua, amídalas, coração, banha de porco, quiabos, folhas de nabo, pimentão verde ou amarelo, salsa, cebola e azeite de dendê.

• Comida de tabuleiro - Por volta de 1750, negras de ganho foram para as ruas de Salvador (BA) e do Rio de Janeiro para vender comida feita em casa. Alforriadas ou escravas de ganho, percorriam as ruas com tabuleiros equilibrados sobre a cabeça vendendo de porta em porta, beijus, cuscuz, bolinhos, vinho de dendê e outras iguarias. As negras vendedoras de comida foram as primeiras baianas que Salvador conheceu. No tabuleiro, estavam as iguarias dos orixás, o acarajé, o vatapá e o abará, que as filhas de santo comercializavam como obrigação do Candomblé. Acarajé é um bolinho de origem africana (do Benin), feito com feijão fradinho, cebola e sal, frito no azeite de dendê. Pode ser aberto e recheado com vatapá e molho de camarão seco. Na sua origem, o acarajé só podia ser vendido pelas filhas de santo de Iansã, em cumprimento à obrigação do seu orixá, que determinava inclusive o tempo em que essa obrigação deveria ser mantida. O preparo dos bolinhos era feito dentro do próprio terreiro de Candomblé, de onde a baiana saía vestindo bata e saia rendada brancas, pano da costa, torço, pulseiras, balangandãs e um colar de contas vermelhas para simbolizar que era filha de Iansã.

• Os povos africanos estabelecem uma relação íntima entre a culinária e a religião. Para continuar cultuando seus orixás, as negras cozinheiras introduziram na culinária da casa grande as receitas das oferendas usadas em rituais religiosos. Algumas comidas de santo no Candomblé são: abará (bolinho feito com massa de feijão fradinho macerado em água e depois ralado sem casca, sal, pimenta, cebola e azeite de dendê. Misturado com camarão seco e, cozido em banho-maria, envolvido em folhas de bananeira); aberém (bolinho feito de milho ou arroz moído na pedra, macerado em água, salgado e cozido em folha de bananeira); acaçá (bolinho feito de milho branco macerado em água e depois moído, cozido sem sal e envolvido, ainda morno, em folhas verdes de bananeira. Acompanha o vatapá ou caruru. Quando preparado com leite de coco e açúcar, é chamado acaçá de leite); ado (milho torrado e moído, misturado com azeite de dendê e mel); aluá (bebida refrigerante feita de milho, de arroz ou casca de abacaxi fermentados com açúcar ou rapadura); amalá (inhame com azeite de dendê, cebola e camarão seco, coberto com molho de quiabos); anduzada (feijão andu cozido, temperado com carne de porco, cebola, alho e coentro); angu (massa feita de fubá de milho, sal e água); axoxô ou abadô (milho vermelho cozido, enfeitado com fatias de coco); bobó (massa feita com feijão mulatinho cozido e amassado, inhame, camarão, cebola ralada, sal, gengibre, azeite de dendê e farinha de mandioca); canjica (mingau de milho branco cozido em leite com açúcar); caruru (frango, quiabo, sal e azeite de dendê); ebó (massa de farinha de milho branco com feijão fradinho torrado, quando ferver juntar sal ou azeite de dendê); efó (folhas de taioba cortadas em pedaços, aferventadas e escorridas, camarões secos moídos, cebola ralada, coentro, pimenta, sal e um pedaço de peixe seco ou bacalhau. Cozinha-se com pouca água, até virar uma pasta bem cozida e seca. Põe-se um pouco de azeite de dendê e mexe-se bem. Serve-se em tigela untada com azeite de dendê quente. Come-se com arroz, acaçá ou aberém.); feijão de azeite ou humulucu (feijão fradinho cozido com cebola e sal, junta-se camarão seco moído e azeite de dendê); ipetê (inhame cortado bem miúdo e fervido até virar uma papa, e temperado com azeite de dendê, cebola, pimenta e camarão); manuê (bolo feito com fubá de milho e mel, cortado em pedaços retangulares, embrulhado em folhas de bananeira e assado em forno quente); moqueca (ensopado feito com peixes, crustáceos ou carne, e temperado com ervas, limão, cebola, leite de coco e azeite de dendê); mungunzá (mingau de milho branco cozido em leite, leite de coco, sal, açúcar, cravo e canela); oguedê (banana da terra em fatias frita no azeite de dendê); omolocum (massa de feijão fradinho cozido); padê (farofa feita com farinha de milho e azeite de dendê); pamonha (massa de milho verde ralado, leite de coco e açúcar, cozida na própria folha); pirão ou angu-de-farinha (massa feita com água, sal e farinha de mandioca ou caldo de algum alimento. É servido como complemento de cozidos, carnes e peixes); quibebe (purê de abóbora cozida com leite de coco, ou de abóbora cozida com carne seca refogada); rabada (carne do rabo do boi cortado em pedaços, temperada e cozida, servida com pirão do próprio caldo ou angu); vatapá (peixe ou crustáceos numa papa de farinha de mandioca, com molho de dendê, azeite doce, pimenta, amendoim, castanha, leite de coco, sal e cebola. Pode ser engrossado com farinha de mandioca, miolo de pão ou fubá); xinxim (galinha em pedaços, bem temperada, cozida num molho de amendoim, castanha de caju, camarão seco e gengibre. Existem xinxins de carne seca, intestinos de boi e sobras de carnes); zorô ou zoró (camarão, azeite, salsa, pimenta, cebola, cebolinha, tomate, cozidos com maxixe, jilós ou quiabos. Come-se com angu).

 

D) Religião:
• Batismo - A Igreja Católica Romana deu ordens para que todos os escravos fossem batizados e participassem da missa e dos sacramentos. Eles eram batizados, antes do embarque na África, ou dentro dos navios ou pouco depois de chegar ao Brasil. Quem não fosse batizado era considerado "não gente", por ser pagão. Como prova de terem sido batizados no ritual católico, eles recebiam na pele o sinal da cruz feito com ferro quente. Os escravos nascidos no Brasil eram logo batizados e ainda assim considerados gente sem alma.

• Jesuítas - Os padres da Companhia de Jesus (jesuítas), limitavam-se ao repúdio aos maus tratos e torturas, não havendo, porém, questionamento da escravidão enquanto instituição. O negro foi excluído da catequese e do processo de educação devido a crença de que não tinha alma. Os jesuítas ensinavam aos escravos apenas a obedecer ao seu senhor e aos padres.

• Irmandades - Os escravos africanos eram proibidos de praticar suas religiões nativas. Não podendo adorar os seus orixás (deuses) publicamente e freqüentar as mesmas igrejas dos senhores, os escravos filiavam-se às irmandades católicas negras. Sob domínio e influência dos colonizadores, começaram a cultuar N. Sra. do Rosário, também chamada de N. Sra. dos Homens Pretos, pois já a conheciam da África, onde a devoção foi levada por missionários dominicanos que impuseram seu culto aos negros. Mais tarde, essa devoção foi associada a São Benedito. As irmandades religiosas dedicadas aos dois santos são ligados aos grupos de dançadores de Congada e Moçambique. Por isso, os estandartes e bandeiras desses grupos fazem referência a eles. A igreja de N. Sra. do Rosário dos Pretos, em Salvador (BA), concluída em 1781 no Largo do Pelourinho, é um marco para a arquitetura colonial. Em estilo rococó, tem cúpulas em estilo mouro sobre os campanários, e foi construída por escravos. N. Sra. do Rosário é padroeira do Pelourinho e tem uma festa no segundo domingo de outubro.

• São Benedito - Considerado o santo padroeiro dos negros, São Benedito nasceu na Itália, por volta do ano de 1526, e faleceu em Palermo (Itália), em 4 de abril de 1589. Seus pais eram de origem escrava e descendiam de negros etíopes ou de mouros do norte da África, daí o fato de ser chamado de São Benedito, o Preto ou o Mouro. No século XVIII surgiram por todo o país as Irmandades de São Benedito, formadas por devotos do santo negro, cozinheiro e descendente de escravos. Pelo calendário litúrgico, seu dia é 5 de outubro mas, suas festas, se estendem por todo o ano. No Vale do Paraíba (entre o RJ e SP) estão concentradas no período compreendido entre a Páscoa e o dia 13 de maio, data da abolição da escravatura, estabelecendo um verdadeiro Ciclo de São Benedito. Em Paraty (RJ), São Benedito é comemorado a 29 de dezembro pelo povo e pela igreja, junto com N. Sra. do Rosário, na festa a que chamam Divino dos Pretos.

• Candomblé e Umbanda - As crenças religiosas dos escravos africanos deram origem ao Candomblé e a Umbanda (mistura do Candomblé com Espiritismo). Existem 4 tipos de Candomblé no Brasil, cada um deles saído de uma nação (grupos étnicos dos escravos africanos): Queto (BA), Xangô (PE e AL), Batuque (RS) e Angola (BA e SP). As diferenças aparecem principalmente na maneira de tocar os atabaques, na língua do culto e no nome dos orixás (deuses). Os povos que mais influenciaram os 4 tipos de Candomblé praticados no Brasil são os da língua iorubá. A mistura com o Catolicismo foi uma questão de sobrevivência. Para os colonizadores portugueses, as danças e os rituais africanos eram pura feitiçaria e deviam ser reprimidos. A saída, para os escravos, era rezar para um santo e acender a vela para um orixá. Foi assim que os santos católicos pegaram carona com deuses africanos e passaram a ser associados a eles. A partir da década de 20, o Espiritismo também entrou nos terreiros, criando a Umbanda, com características bem diferentes. Assim, o Candomblé já se incorporou à alma brasileira. Tanto é que o país inteiro conhece a saudação mágica que significa, em iorubá, energia vital e sagrada: Axé! (Texto de Pierre Verger, in Super Interessante, janeiro 1995)

• Candomblé - A preparação é fechada ao público. Somente os membros da comunidade de santo, ou seja, do terreiro, podem participar dela. Essa parte do ritual começa na madrugada anterior e dura o dia inteiro. O toque é o mesmo que festa e se refere à batida dos atabaques, que convoca os orixás. A estrutura da cerimônia, chamada "ordem de xirê" (brincadeira, na língua iorubá), divide a festa em três partes. A primeira acontece à tarde, com o sacrifício, a oferenda e o padê de Exu. A segunda é a festa em si, à noite, na presença do público, quando os filhos-de-santo incorporam os orixás. E a terceira fase, o encerramento, com a roda de Oxalá, o deus criador do homem. Os três atabaques (rum, rumpi e lé), que fazem soar o toque durante o ritual também são responsáveis pela convocação dos deuses. O rum funciona como solista, marcando os passos da dança. Os outros dois, o rumpi e o lé, reforçam a marcação, reproduzindo as modulações da língua africana iorubá. Além dos atabaques, usam-se também o agogô (dois sinos achatados, de ferro, onde se bate com pedaço de metal), e o xequerê (cabaça envolta em uma rede de contas). São, ao todo, mais de 15 ritmos diferentes. Cada casa-de-santo tem até 500 cânticos. Segundo a fé dos praticantes, os versos e as frases rítmicas, repetidos incansavelmente, têm o poder de captar o mundo sobrenatural. Essa música sagrada só sai dos terreiros na época do carnaval, levada por grupos e blocos de rua, principalmente em Salvador, como Olodum ou Filhos de Gandhi. (Fonte: Super Interessante, janeiro 1995)

• Afoxé - O afoxé é uma dança-cortejo ligada ao Candomblé, conhecida como candomblé de rua, típica do Carnaval baiano. Após os ritos religiosos nos terreiros, onde são evocados os orixás, o grupo sai para a rua entoando canções com palavras em línguas africanas como o iorubá. Para marcar o ritmo, são usados instrumentos como agogôs, atabaques e xequerês. Entre os afoxés, o mais conhecido é o Filhos de Gandhi, cujos integrantes se vestem de branco e azul, com turbantes na cabeça. O primeiro afoxé baiano, foi organizado em 1895 pelos negros nagôs e desfilou com roupas e objetos de adorno importados da África. (Fonte: Almanaque Abril, 1995)

• Xangô - Há no Norte do Brasil diversos cultos que atendem pelo nome de Xangô. No Nordeste, mais especificamente em Pernambuco e Alagoas, a prática do Candomblé recebeu o nome genérico de Xangô, talvez porque naquelas regiões existissem muitos filhos de Xangô entre os negros que vieram da África. (Fonte: livro Orixás - Editora Três)

•Tambor de mina - É o termo pelo qual é conhecida a religião que os descendentes de negros africanos de origem jeje e nagô trouxeram para o Maranhão. É uma manifestação da religiosidade popular maranhense que tem lugar em casas de culto conhecidas como terreiros. É uma religião de possessão, onde os iniciados recebem entidades espirituais cultuadas pelo seu pai de santo em rituais conhecidos como tambor. Nos rituais são utilizados tambores, cabaças, triângulos e agogôs. Mediante o toque dos instrumentos, os iniciados, em grande parte mulheres, vestidas com roupas específicas para o ritual, dançam e incorporam as entidades espirituais. Em São Luís, duas casas de culto africano deram origem a esta forma de manifestação da religiosidade dos negros: a Casa das Minas e a Casa de Nagô. A Casa das Minas foi fundada por negras trazidas do reino do Daomé (hoje Benim), habitado por negros Mina. Nesse terreiro são recebidas entidades espirituais denominadas voduns. A Casa de Nagô, também fundada por descendentes de africanos, deu origem aos demais terreiros de São Luís, onde são recebidas entidades caboclas de origem européia ou nativa. (Fonte: City Brasil - Maranhão)

• Orixás (deuses) - Cada orixá tem o seu símbolo, o seu dia da semana, suas vestimentas e cores próprias. Os 12 orixás mais cultuados no Brasil são: Exu, Oxóssi, Obaluaê, Oxum, Iansã, Ogum, Ossaim, Oxumarê, Xangô, Nanã, Iemanjá e Oxalá. Exu é o orixá mensageiro entre os homens e os deuses, guardião da porta da rua e das encruzilhadas. Só através dele é possível invocar os orixás. Colar e roupa: vermelho e preto; Oxóssi é o deus da caça. É o grande patrono do candomblé brasileiro. Colar: azul claro. Roupa: azul ou verde claro; Obaluaê é o deus da peste, das doenças da pele. É o médico dos pobres. Colar: preto e vermelho, ou vermelho, branco e preto. Roupa: vermelha e preta, coberta por palha; Oxum é a deusa das águas doces (rios, fontes e lagos). É também deusa do ouro, da fecundidade, do jogo de búzios e do amor. Colar e roupa: amarelo ouro; Iansã é a deusa dos ventos e das tempestades. É a senhora dos raios e dona da alma dos mortos. Colar: vermelho ou marrom escuro. Roupa: vermelha; Ogum é o deus da guerra, do fogo e da tecnologia. No Brasil é conhecido como deus guerreiro. Sabe trabalhar com metal e, sem sua proteção, o trabalho não pode ser proveitoso. Colar: azul-marinho. Roupa: azul, verde escuro, vermelho ou amarelo; Ossaim é o deus das folhas e ervas medicinais. Conhece seus usos e as palavras mágicas (ofós) que despertam seus poderes. Colar: Branco rajado de verde. Roupa: branca e verde claro; Oxumarê é o deus da chuva e do arco-íris. É, ao mesmo tempo, de natureza masculina e feminina. Transposta a água entre o céu e a terra. Colar: amarelo e verde. Roupa: azul claro e verde claro; Xangô é o deus do fogo e do trovão. Diz a tradição que foi rei de Oyó, cidade da Nigéria. É viril, violento e justiceiro. Castiga os mentirosos e protege advogados e juízes. Colar e roupa: branco e vermelho; Nanã é a deusa da lama e do fundo dos rios, associada à fertilidade, à doença e à morte. É a orixá mais velha de todos e, por isso, muito respeitada. Colar: branco, azul e vermelho. Roupa: branca e azul; Iemanjá é considerada deusa dos mares e oceanos. É a mãe de todos os orixás e representada com seios volumosos, simbolizando a maternidade e a fecundidade. Colar: transparente, verde ou azul claro. Roupa: branca e azul; Oxalá é o deus da criação. É o orixá que criou os homens. Obstinado e independente, é representado de duas maneiras: Oxaguiã, jovem, e Oxalufã, velho. Colar e roupa: branco. (Fonte: Super Interessante, janeiro 1995)

• Sincretismo - São comuns, nas festas populares baseadas no calendário religioso, manifestações de sincretismo afro-cristão, que fundem os orixás do candomblé com os santos católicos. Na religião católica Exu é representado por Sto Antônio (festa dia 13 de junho) e São Benedito (dia 5 de outubro); Omolu/ Obaluaê por São Lázaro (dia 17 de dezembro) e São Roque (dia 16 de agosto); Nanã por Sta Ana (dia 26 de julho); Xangô por São Jerônimo (dia 30 de setembro), São José (dia 19 de março), São João (dia 24 de junho) e São Pedro (dia 29 de junho); Iansã/Oiá por Sta Bárbara (dia 4 de dezembro); Obá por Sta Joana d'Arc (dia 30 de maio); Ogum por São Jorge (dia 23 de abril) ou São Sebastião (dia 20 de janeiro); Oxóssi por São Sebastião (dia 20 de janeiro) ou São Jorge (dia 23 de abril); Oxumaré por São Bartolomeu (dia 24 de agosto); Logunedê por Sto Expedito (dia 19 de abril) ou São Miguel (dia 29 de setembro); Oxalá jovem (Oxaguiã) pelo Menino Jesus (dia 24 de dezembro) e Oxalá velho (Oxalufã) pelo Senhor do Bonfim (2o domingo depois do Dia de Reis); Iemanjá por N. Sra. das Candeias (dia 2 de fevereiro); Oxum por N. Sra. da Conceição (dia 8 de dezembro); Euá por N. Sra. das Neves (dia 5 de agosto); Ibeji (Vungi) pelos santos Cosme e Damião (dia 27 de setembro). (Fonte: Orixás - Pallas Editora)

• Iemanjá - A festa de Iemanjá é realizada na madrugada do primeiro dia do ano, no Sul e no Sudeste, e em Salvador no dia 2 de fevereiro, dia de N. Sra. da Candelária (da Luz ou das Candeias). Entregam-se flores e outras oferendas à Iemanjá (ou Janaína), principal orixá feminino, mãe de todos os orixás, considerada deusa dos mares e oceanos, rainha das águas e sereia do mar. Segundo o livro Orixás, da Editora Três, "na África, a origem de Iemanjá é um rio que vai desembocar no mar. De tanto chorar com o rompimento com seu filho Oxóssi, que a abandonou e foi viver escondido na mata junto com o irmão renegado Ossaim, Iemanjá se derreteu, transformando-se num rio que foi desembocar no mar." Iemanjá na religião católica corresponde a Nossa Senhora.

• Lenda de Iemanjá - Quando Obatalá e Odudua se casaram, tiveram dois filhos: Iemanjá (o mar) e Aganju (a terra). Os irmãos se casaram e tiveram um filho, Orungã (o ar). Quando cresceu, Orungã apaixonou-se pela mãe. Um dia, aproveitando a ausência do pai, tentou violentá-la. Iemanjá conseguiu escapar e fugiu pelos campos. Quando Orungã já a alcançava, ela caiu ao chão e morreu. Então seu corpo começou a crescer até que seus seios se romperam e deles saíram dois grandes rios, que formaram os mares; e do ventre saíram os orixás que governam as 16 direcões do mundo: Exu, Ogum, Xangô, Iansã, Ossain, Oxóssi, Obá, Oxum, Dadá, Olocum, Oloxá, Okô, Okê, Ajê Xalugá, Orum e Oxu. (Fonte: Orixás - Pallas Editora)

• São Sebastião - A Igreja Católica festeja São Sebastião com missas e procissões no dia 20 de janeiro. Nessa mesma data ele é festejado pelas comunidades dos cultos religiosos afro-brasileiros em seus terreiros e barracões. No Candomblé São Sebastião é sincretizado com Ogum, deus da guerra, e na Umbanda é sincretizado com Oxóssi, deus da caça. Em outros rituais ele é sincretizado com Omulú e Obaluayê, por causas das chagas causadas pelos ferimentos causados pelas flechas. São Sebastião é muito venerado em todo o Brasil, onde muitas cidades o têm como padroeiro, entre elas, a cidade do Rio de Janeiro. Em sua honra, dramatiza-se em Conceição da Barra (ES), a 19 e 20 de janeiro, o Alardo, dança dramática do grupo dos folguedos de cristãos e mouros (Chegança). Ele é o protetor dos atletas, dos soldados e guardião do amor, devido à demonstração de amor e fé dedicada aos princípios fundamentais do cristianismo.

• São Cosme e São Damião - Eram gêmeos que foram martirizados no dia 27 de setembro de 287, na Egéia, Cíclica, Ásia Menor, durante a perseguição do imperador Diocleciano. Foram canonizados pela Igreja Católica e hoje são patronos dos cirurgiões. No Brasil, são defensores da fome, das doenças do sexo e dos partos duplos. No Candomblé os santos Cosme e Damião são sincretizados com Ibeji (Vungi). No dia que lhes é consagrado, 27 de setembro, recebem homenagens promovidas por pagadores de promessa, que deve estender-se por 7 anos. Alguns devotos fazem a festa de mesa, quando 7 crianças (ou outro múltipo de 7), sentam-se em uma mesa com bolo, doces e refrigerantes. No RJ, as ruas enchem-se de crianças em correria à procura de brinquedos e saquinhos de doces, decorados com as figuras dos santos, ofertados por devotos. Nos saquinhos, encontram-se diferentes tipos de doces: cocada, pé-de-moleque, maria-mole, doce-de-leite, balas. Os devotos também costumam destinar alguns doces e refrigerantes para serem colocados em frente às suas imagens num altar, onde também são acesas velas. Na Bahia, Dois-dois é o nome que o povo dá aos santos. No dia deles são oferecidas refeições à 7 crianças, seguindo-se o almoço dos adultos e danças, diante do altar com as imagens dos santos. É comum as estampas de Cosme e Damião incluírem uma criança representando Doum que, segundo a crença popular, era filho de uma empregada da família dos gêmeos e morreu no dia seguinte ao martírio dos irmãos.

• São Jorge - Conhecido como o santo guerreiro, São Jorge é um santo muito popular, cultuado não somente nas igrejas católicas como também em terreiros de todas as linhas. É festejado no dia 23 de abril, com procissões católicas e atividades nos terreiros. No Candomblé São Jorge é sincretizado com Oxóssi, deus da caça, e na Umbanda é sincretizado com Ogum, deus da guerra. Justiceiro, protetor dos oprimidos e injustiçados, é o patrono de corporações militares, escolas de samba, clubes de futebol. É bom ter um pé de espada-de-são jorge plantado no jardim das casas que ficam, assim, protegidas de todo o mal. A espada-de-são jorge é uma planta muito usada nos banhos e libações (derramamento de líquido em um altar).

• Banho-de-cheiro - O banho-de-cheiro é muito usado nas religiões afro-brasileiras. É um banho aromático preparado com ervas, cascas de plantas, flores, essências e resinas, que tem o poder de conservar a felicidade, afastar o azar, readquirir os favores da sorte e acabar com o mau-olhado. O banho-de-cheiro nordestino é feito com sete plantas: arruda, alecrim, manjericão, malva-rosa, malva-branca, manjerona e vassourinha. Nos banhos de cheiro não se usa sabonete nem toalha. Os melhores dias para tomar banho-de-cheiro são os seguintes: Ano-Novo, Sábado de Aleluia, dia de São João, Natal e antes de casar. (Fonte: Dicionário de Folclore para Estudantes)

• Missa afro - Missa onde os rituais católicos misturam-se às tradições afro-brasileiras. É um rito católico inculturado, a partir dos valores africanos, celebrado ao som de atabaques e cantos afros. Não há sincretismo, isto é, elementos dos cultos africanos não são misturados à celebração. Na Paróquia N. Sra. Achiropita em São Paulo, além da missa afro, são celebrados batismos e casamentos afro.


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G) Danças dramáticas e folguedos
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