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Resende
Cultura Popular Brasileira
e Folclore
Edição e Pesquisa de Lenise Resende
(página 1)
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I -
Cultura
• Cultura é o conjunto
de criações que vão desde os objetos e utensílios até as
crenças e padrões de comportamento de um povo. Ela
desperta no homem o sentido de criatividade. Ex: Santos
Dumont - Pelos seus estudos, tornou-se um homem culto.
Graças à sua cultura, ele adquiriu criatividade.
A aquisição de cultura é um processo contínuo, que se
inicia no lar e se estende pela vida toda. A família é a
primeira instituição que nos transmite conhecimentos.
Não dispondo de todos os meios indispensáveis para
concretizar o direito e dever de educar, delega poderes
de educar à escola.
• A palavra cultura possui dois sentidos básicos:
a) sentido pessoal - é o conjunto de conhecimentos de
uma pessoa. Ex: Uma pessoa que recebeu uma boa educação
na família e dedicou-se aos estudos na escola é
considerada pessoa de boa cultura.
b) sentido social - é o conjunto de conhecimentos e
realizações dos membros de uma sociedade - não é apenas
os ensinamentos que recebemos na escola ou através dos
livros, é toda criação humana utilizada pelo grupo
social. Assim todas as sociedades, primitivas ou
civilizadas, possuem a sua cultura própria.
• Falando em "cultura brasileira", estamos usando a
palavra cultura no seu sentido social. A cultura social
brasileira formou-se pela herança cultural indígena,
negra e portuguesa. O Brasil é um país de grande
dimensão geográfica, cuja população é constituída por
uma mistura (miscigenação) de três raças: |
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1. A raça branca,
representada pelos nossos colonizadores portugueses.
Para o Brasil, eles trouxeram seus hábitos, seus
costumes, tradições e a sua música. Foi a maior
influência cultural que recebemos. Os brasileiros
herdaram dos portugueses:
- a língua portuguesa
- a organização social, jurídica e administrativa
- o conhecimento científico e artístico europeu
- a religião católica com suas diversas manifestações
(igrejas, procissões, devoção aos santos, festas
religiosas)
- grande parte dos costumes sobre alimentação, vestuário
e moradia
- diversas danças e músicas (as festas juninas, as
brincadeiras de roda, serenatas, coretos,
cavalhadas,...)
- danças dramáticas (Bumba-meu-boi, Cheganças, Pastoris,
Folias de Reis, Cordão de Bichos)
- instrumentos (guitarra (violão), viola, cavaquinho,
flauta)
• Observação* - "O folclore luso e a cultura popular
européia em geral, resultaram de um processo de
sedimentação que decorreu durante séculos. Estava de tal
modo associado às condições de vida da aldeia campesina
que não poderia subsistir em condições tão diversas como
as oferecidas pelo Brasil. em primeiro lugar, refletia
toda uma ordenação do tempo, condicionada a variações
climáticas e às técnicas de cultivo próprias da Europa.
As festas populares — nas quais se executavam danças,
folguedos, ritos propiciatórios e cantigas de trabalho —
acompanhavam um ritmo agrícola associado às estações do
ano. A divisão do espaço e sua associação a espíritos e
entidades sobrenaturais estavam vinculadas ao tipo
particular de oposição entre campo cultivado e floresta.
A inversão das estações do ano europeu, o ritmo diverso
do ano agrícola e a natureza diferente das plantas
impediam que se reconstituísse o esquema anterior de
representação do espaço e do tempo. Mais ainda, o
folclore europeu (rural em grande parte) dependia de
formas de sociabilidade, de relações de trabalho
próprias da estutura de aldeia, com sua concentração
populacional, formas de divisão do trabalho,
homogeneidade cultural e relativa indiferenciação social
da população. No Brasil, ao contrário, as pessoas
dispersam-se nos grandes espaços do interior ou
concentram-se em unidades rigidamente estratificadas, de
composição étnica diversa, como é o caso dos engenhos.
Alterou-se, portanto, a própria natureza da vida
social." |
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2. A raça amarela,
representada pelo índio nativo. A liberdade, uma das
características básicas da formação do caráter do homem
brasileiro, foi herdada do indígena, que reagiu ao
trabalho que o português quis lhe impor, fugindo para o
interior do país. Herança indígena:
- alimentos (mandioca, milho, guaraná, palmito)
- objetos (rede de dormir, esteira, cestos, jangada,
canoa, armadilhas de caça e pesca, instrumentos musicais
como maracá, chocalho)
- danças dramáticas - Caboclinhos ou cabocolinhos,
Caiapós, Guerreiros, Cateretê e Cururu (em Minas Gerais,
Goiás e São Paulo, onde a influência indígena foi
marcante).
- lendas
- vocabulário (inúmeras palavras da língua tupi como:
abacaxi, amendoim, arara, caju, jacaré, mandioca, milho,
pipoca, piranha, sabiá, tatu, urubu / nomes de pessoas:
Araci, Iara, Jacira, Maíra, Moema, Ubirajara / nomes de
lugares: Chapecó, Cuiabá, Curitiba, Goiás, Guanabara,
Guaratinguetá, Ipanema, Ipiranga, Itajubá, Manaus,
Paraná, Piauí, Roraima, Tapajós, Ubá)
- hábitos (o uso do tabaco, o banho diário, o uso de
cores fortes e enfeites )
• Observação* - "Em relação à população indígena, a
permanência do ambiente não foi suficiente para
compensar a destruição da sociedade tribal. Subsistiram
muitas das técnicas e dos produtos agrícolas, mas
inseridos em novos modos de produção, e apenas algumas
crenças relativas à flora, à fauna e aos acidentes
geográficos foram conservadas, de forma fragmentária e
incorporadas ao novo folclore de formação." |
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3. A raça negra,
representada pelos africanos trazidos como escravos para
os trabalhos pesados nas fazendas. À noite, recolhiam-se
à senzala (casa dos escravos). Para esquecer os maus
tratos e trabalho duro do dia-a-dia, cantavam e dançavam
os ritmos de sua pátria distante. Herança negra:
- alimentos (diversos doces e pratos da cozinha baiana,
como cocada, pé-de-moleque, quindim, vatapá, acarajé,
caruru)
- religião (crenças religiosas que deram origem à
Umbanda e ao Candomblé)
- música (a música popular brasileira herdou dos negros
a sua força rítmica. A música negra deu origem ao samba,
maracatu e maxixe. Dentre os principais instrumentos
musicais herdados dos negros, podemos citar: Adufe,
Agogô, Atabaque ou tabaque, Berimbau, Carimbó, Caxambu,
Chocalho, Cucumbi, Cuíca ou Puíta (zabumba, em Portugal
e Espanha), Fungador, Ganzá ou anzá, Gongo, Marimba,
Mulungu, Pandeiro, Pererenga, Piano de cuia (balafo, na
África), Quiçanje, Reco-reco, Roncador, Socador, Tambor
ou tambu, Triângulo, Ubatá, Vuvu ou vu, Xequeré ou
xequedê)
- danças dramáticas (Maracatu, Congo ou congada, Taieira,
Quilombo)
- vocabulário (diversas palavras foram herdadas, como:
banana, caçula, xingar, fubá, moleque, cachimbo,
quitanda, cachaça).
• Observação* - "Com os negros, o processo de
desagregação do universo de representações foi muito
mais violento. Embora o ambiente geográfico brasileiro
fosse mais semelhante ao africano que o europeu, a
escravidão destruiu completamente o mundo tribal, ao
mesmo tempo que dificultou o desenvolvimento de novas
formas de sociabilidade espontânea. Além do mais, reuniu
representantes das mais diversas culturas tribais (que,
inclusive, não falavam a mesma língua de origem). Apenas
em algumas cidades, onde, com o tempo, concentraram-se
grandes massas de escravos e libertos, foi possível
reunir grupos de origem semelhante, e, através do
contato permanente com a África (importações de
escravos), reconstituiu-se parte da cultura original,
com a organização dos cultos africanos."
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Conclusão* - Conhecendo
as três raças que formaram a nação brasileira, não é
difícil concluir que as manifestações folclóricas em
nosso país já existiam, com o indígena, antes do
descobrimento e a chegada do português colonizador e o
negro africano. "Os aspectos dominantes do folclore
brasileiro são de origem européia, pois os portugueses
constituíram a camada socialmente dominante da população
colonial. A influência indígena ou negra aumenta ou
diminui conforme a região, de acordo com a importânica
relativa que cada uma dessas etnias assume no processo
de colonização. Por outro lado, a transformação do modo
de vida, decorrente da necessidade de adaptação ao novo
ambiente, impedia a simples transplantação do folclore
luso."
• Bagagem Cultural:
"...Toda vez que vamos a algum lugar e encontramos
pessoas diferentes, a gente conversa, troca informações,
ensina e aprende coisas. Quando fazemos isso, acabamos
adquirindo hábitos e costumes de outras pessoas. Logo,
isso aconteceu com os portugueses, quando eles
resolveram viajar (em 1500). Além de objetos pessoais,
ferramentas, instrumentos de navegação e alimentos, eles
levavam na bagagem tudo o que conheciam e acreditavam. E
foi assim que suas crenças, mitos e lendas chegaram ao
Brasil - na bagagem cultural que é formada, como já
vimos, pelo conjunto de coisas que a gente sabe, que a
gente ensina e que aprende." Adaptação de texto de
Georgina da C. Martins ( in Globinho Pesquisa)
Abrindo a bagagem - Em Portugal, há 500 anos, um monte
de gente acreditava em lobisomen e em mula-sem-cabeça, e
parte dessa gente veio para o Brasil. Aqui, os
portugueses começaram a contar histórias de sua terra e
de sua bagagem cultural tiraram também outros seres
fantásticos, como sereias, sacis, velhos-do-saco,
bruxas, fadas, bicho-papão, papa-figos e muitos mais,
que, aqui, assustaram e, ao mesmo tempo, embalaram o
sono de muitas crianças. Os negros, trazidos da África
pelos portugueses para serem escravos, além de muita
tristeza e saudades de sua terra natal, trouxeram,
também, inúmeras histórias. Aliás, como eles foram
capturados e obrigados a deixar sua terra, não tiveram
condiçoes de arrumar seus pertences para a viagem. Mas
ninguém pôde proibi-los de trazer suas crenças, suas
histórias, seus hábitos e seus costumes, ou seja, a tal
bagagem cultural. Na imaginação dos viajantes, livres ou
escravizados, veio toda sorte de crenças, mitos e lendas
que aqui, em solo fértil, brotou e proliferou por todo o
território. Com os portugueses vieram lobisomens,
mulas-sem-cabeça e outros. Com os africanos vieram
quibungo, chibamba e as histórias de animais. Aí, você
pode perguntar: e as histórias dos índios que já estavam
aqui? Eu diria que os lobisomens e os quibungos
encontraram-se com mapinguaris, caiporas, curupiras e
passaram a conviver em harmonia nas florestas e na
imaginação dos brasileiros que iam nascendo, neste novo
território, da mistura de europeus, africanos e índios.
(Georgina da Costa Martins, in Globinho Pesquisa) |
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• Herança dos
imigrantes:
A cultura portuguesa que, através do idioma e da
religião, se espalhou por todo Brasil, foi um poderoso
fator de unidade nacional. Através da herança portuguesa
o povo brasileiro foi adquirindo uma personalidade como
nação, conservando usos e costumes e lutando pelos
mesmos ideais. Mais tarde, também os imigrantes nos
trouxeram de suas pátrias de origem uma grande
contribuição: enriqueceram nossa língua com novas
palavras, ensinaram-nos suas músicas, danças, artes,
crenças, orações, lendas, anedotas e remédios caseiros.
Uso de palavras de outros idiomas:
Na formação da língua portuguesa houve o aproveitamento
de várias palavras de outros idiomas. Muitas foram
aportuguesadas, outras guardam a grafia de sua língua
originária. Algumas palavras de outras línguas que foram
incorporadas ao português, segundo o Dicionário
Etimológico da Língua Portuguesa, de Antenor Nascentes,
1932, são: açougue (árabe), berinjela (persa), biombo
(japonês), buldogue (inglês), burocracia (francês),
calouro (grego moderno), chá (chinês), comunista
(francês), crocodilo (egípcio), escorbuto (russo),
edredão (sueco), escuna (holandês), estopim (catalão),
galera (italiano), gongo (malaio), pandeiro (espanhol),
sandália (turco). O filólogo Evanildo Bechara, indagado
sobre a situação de nosso idioma e o desprestígio da
tarefa de conservá-la aos olhos do senso comum,
respondeu: "Em um mundo globalizado, essa é uma luta
inglória. Mas esse cosmopolitismo deve ter limites. Ao
serem ultrapassados, perde-se a identidade da língua.
Deve-se aceitar o estrangeirismo em nosso idioma até o
momento em que sua identidade como comunidade livre não
é ferida'' Para ele, a palavra estrangeira deve ser
usada só na ausência de similar nacional. "Mouse" (o
dispositivo de computador) devia chamar-se "rato",
exemplifica. Na Espanha, deve-se lembrar, o mesmo
"mouse'' é chamado de "ratón''.
As palavras usadas com a grafia originária, devem ser
escritas entre aspas ou grifadas. As que estiverem
incorporadas aos hábitos lingüísticos devem vir sem
aspas: marketing, merchandising, software, dark, punk,
status, offlce-boy, hippie, show etc.
- avant-première (francês) = estréia
- best-seller (inglês) = obra mais vendida
- country (inglês) = rústico, caipira
- feedback (inglês) = informações passadas armanezadas
na memória
- free-lance (inglês) = trabalho esporádico
- habeas-corpus (latim) = liberdade física de réu em
julgamento ou não-julgado (termo jurídico)
- ipsis litteris (latim) = ao pé da letra
- know-how (inglês) = experiência
- lady (inglês) = senhora refinada
- long-play (inglês) = disco
- menu (francês) = cardápio
- nouveau-riche (francês) = novo-rico
- office-boy (inglês) = ajudante de escritório
- out-door (inglês) = cartaz
- play-ground (inglês) = parque infantil
- réveillon (francês) = comemoração do dia primeiro de
janeiro
Outros estrangeirismos aportuguesados, lembrados no
livro Linguagem e Vida, de Norma Goldstein e Marinez
Dias ( 8a série, Ed. Ática), são:
a) do francês: balé (ballet), bijuteria (bijouterie),
boate (boîte), boné (bonnet), buquê (bouquet), camelô (camelot),
chalé (chalet), chique (chic), envelope (enveloppe),
garagem (garage), maiô (maillot), tricô (tricot).
b) do inglês: basquetebol (basket-boll), biquini (bikini),
clube (club), dólar (dollar), faroeste (far-west), filme
(film), futebol (foot-ball), lanche (lunch), piquenique
(picnic), pingue-pongue (ping-pong), sanduíche (sandwich),
xampu (shampoo), tênis (tennis), voleibol (volley-ball).
c) outros:
italiano - nhoque (gnocchi), salsicha (salsiccia)
latim - hábitat (habitat), idem (idem) |
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Fontes: Música Comunicação
- vol. 1- Luiz Martins Abrahão - Cia. Ed. Nacional /
Educação Moral e Cívica, Elian Alabi Lucci, Ed. Saraiva
/ Ainda Brincando (Est. Sociais) RJ -3a série - Joanita
Souza / Moral e Civismo é com a Gente-3a série- Dejanyra
Ma Conceição-FTD / O Livro dos Nossos Filhos (4 Vol) Ed.
Alfa / Almanaque Abril-1995 / * Dever de Casa (www.deverdecasa.hpg.com.br/index.html
) |
Gabi e demais personagens Copyright Lenise Resende
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