Barba Azul
(La Barbe-Bleue; Blue Beard)
Charles Perrault

 

Houve, em tempos antigos, um homem riquíssimo, que conservava uma grande barba azul. Casado, sucessivamente, com diversas mulheres, todas elas haviam desaparecido misteriosamente, sem que ninguém tivesse conseguido saber o que era feito delas. Por último, viúvo mais uma vez, enamorou-se de uma donzela da região e pediu-a em casamento. As bodas foram celebradas com grande pompa e os recém-casados viveram em paz e felizes durante um mês. Passado esse tempo, Barba Azul despediu-se da mulher: tinha de realizar uma longa viagem e deixava-lhe as chaves de todo o castelo, que ela podia visitar a vontade, desde o sótão até os porões. Somente não devia nunca entrar, a qualquer pretexto no aposento central. A mulher prometeu obedecer e Barba Azul partiu.

Ao ver-se só no castelo, a jovem esposa começou a percorrer todos os compartimentos do majestoso edifício e encontrou, por toda parte, objetos de valor e obras de arte. Nada, porém a distraía. Tinha sempre em mente a proibição imposta pelo marido. Por fim, não pôde mais resistir à curiosidade, abriu a porta do misterioso compartimento e nele penetrou. O que viu, então, encheu-a de imenso terror. O pavimento estava todo manchado de sangue e, nas paredes, achavam-se pendurados os cadáveres das anteriores esposas do Barba Azul, por ele assassinadas. Com a pressa de retirar-se daquele sinistro lugar e fugir àquele horroroso espetáculo, deixou cair à chave do tétrico aposento, a qual ficou manchada de sangue. Em vão a castelã tentou limpar aquelas manchas reveladoras. Quanto mais lavava a chave e esfregava, mais as nódoas se faziam nítidas, no brilhante metal daquele comprometedor objeto que tinha nas mãos.

Quando Barba Azul regressou, a desditosa esposa se viu obrigada a devolver-lhe o molho de chaves. Ele imediatamente notou as manchas na chave do aposento proibido. Compreendeu que a mulher tinha sido desobediente e indiscreta e disse-lhe, com voz irritada; -  Por haveres entrado, apesar de minha proibição, naquele quarto, também morrerás, tal como as outras mulheres que lá viste! Não valeram súplicas, promessas e lágrimas. Barba Azul mostrou-se inexorável. A jovem, então, para ganhar tempo, pediu-lhe que adiasse por uma hora a decisão de matá-la, para que pudesse recitar suas orações. Havendo obtido esse prazo, chamou a irmã, que estava passando uma temporada com ela. Minha querida Ana - disse-lhe ela - sobe à torre mais alta do castelo e vê se nossos irmãos vêm vindo! Ana subiu, porém nada avistou. À sua frente, estendia-se a planície, ensolarada e deserta. - Ana minha irmã, não vês se alguém vem vindo? - perguntava a cada instante a infeliz. Ana, por mais que aguçasse a vista, nada via. Mas, de repente, divisou ao longe uma pequenina nuvem de pó, que ia aumentando à medida que se aproximava. - São nossos irmãos - exclamou ela. Já os estou reconhecendo! Vêm a galope, até nós...

Exatamente naquele instante, o Barba Azul, cansado de esperar, chamou a esposa, com um grito tão violento que o castelo tremeu até os alicerces. A desditosa moça foi obrigada a atender ao chamado. O marido agarrou-a, então, pela opulenta cabeleira e ergueu a mão, que brandia a espada... Nesse momento, os dois jovens irmãos da moça irromperam no compartimento e, vendo o que estava passando, desembainharam as espadas, avançaram contra o cruel Barba Azul e mataram-no, sem dó nem piedade.

Fonte: O Livro dos Nossos Filhos (Vol.1), 1959, Editora Alfa.
Versão brasileira de "El Libro de Nuestros Hijos", editado por UTEHA do México.
    

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