O cágado (jabuti) e seu companheiro urubu foram
convidados para uma festa no céu. O urubu, querendo
ironizá-lo, disse: "Então, compadre cágado, já sei
que vai à festa e eu quero ir em sua companhia."
"Pois não", respondeu o outro, "contanto que você
leve a sua viola." Separaram-se, ficando o urubu de
ir à casa do cágado, para irem juntos.
No dia seguinte, logo muito cedo, o urubu apareceu.
O cágado estava à janela, e assim que o viu voando,
escondeu-se. O outro entrou, e foi a mulher do
cágado quem o recebeu. Convidou-o a passar para a
sala de jantar. "Venha cá para dentro tomar uma
xícara de café. Deixe aí a sua viola, que ninguém a
quebra." O cágado, assim que o urubu passou,
meteu-se dentro da viola. "E seu marido, comadre?"
"Ora, mandou pedir mil desculpas, mas já foi
adiante."
O urubu, acabando o café, pegou na viola sem nada
desconfiar, abriu vôo e chegou ao céu.
Perguntaram-lhe pelo cágado, sabendo que haviam
combinado vir juntos. "Qual! Pois vocês pensam que
ele vem? Quando lá embaixo ele nem sabe andar,
quanto mais voar!" Pilhando-o distraído, o cágado
saiu da viola e apareceu no meio dos outros, que se
admiraram muito ao vê-lo. Dançaram e brincaram até
tarde. Acabada a festa, usando do mesmo estratagema,
o cágado meteu-se dentro da viola. O urubu descia
voando, quando o cágado se mexeu sem querer. "Ah! é
assim que você sabe voar? Pois voa mais depressa,
exclamou o companheiro virando a caixa." O cágado
despenhou-se daquela imensa altura, e, quando vinha
chegando à terra, vendo que ia se esborrachar sobre
uma pedra, começou a berrar: "Arreda, pedra, senão
eu te esborracho!" Quem caiu foi ele, que se achatou
completamente, ficando com a forma que ainda hoje
conserva.
Fonte: Histórias da Avozinha, Alberto Figueiredo
Pimentel, Livraria Quaresma, RJ, 1896
- com 50 contos infantis escritos ou traduzidos por
ele.
Nota: A festa no céu é considerado um conto
etiológico (etiologia é a ciência da origem das
coisas), por falar da origem dos desenhos no couro
do jabuti. Jabuti ou cágado é um tipo de quelônio,
semelhante à tartaruga, porém terrestre e
herbívoro.O folclorista Luís
da Câmara Cascudo (Literatura Oral
no Brasil, Ed. Itatiaia, 1984) encontrou na 13ª
narrativa do Pachatantra (a mais antiga coleção de
fábulas indianas conhecida),
uma história com temática similar ao nosso conto "A
festa no céu". Trata-se da história de "Kambugriva,
uma tartaruga que morava no lago Fulatpala, no país
de Magada. Dois gansos, Sancata e Vicata, para
salvá-la da estiagem que seca as águas do lago,
levam-na pelos ares, segura pela boca a um bastão.
Vendo o espanto dos lavradores que a olham nas
nuvens, Kambugriva abre a boca para dizer: - Que
admiração é esta? - e vem morrer aos pedaços, nos
rochedos."